Ano passado eu fui à Vírgula e foi a pior festa da minha vida

Ação virtual questiona machismo e desigualdades de gênero em festa universitária

Por Aline Ramos

A tradicional festa do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Unesp, do campus de Bauru, Vírgula, foi alvo de campanha virtual do Coletivo Feminista do campus. Por meio de um flyer divulgado na página do Coletivo no Facebook e compartilhado por diversos usuários, a campanha questionava porque o primeiro lote da festa para homens era cobrado o valor de R$25 e para mulheres R$2,50.

Flyer divulgado na página do Coletivo Feminista Unesp Bauru. (Imagem: Divulgação Coletivo Feminista)

A festa que surgiu em 2004 com o intuito de integrar os estudantes do curso de Engenharia Mecânica é apontada como machista pela desigualdade de preços. Essa diferença é feita para que mais mulheres possam comparecer a uma festa de um curso em que a maioria dos alunos são homens.  A estudante de Jornalismo, Thamires Motta, uma das integrantes do Coletivo Feminista, acredita que essa diferença anuncia um machismo intrínseco na sociedade.

“Propor que mulheres paguem R$2,50 e homens R$25,00 é quase como assumir que você não passa de uma isca, e que a desigualdade de gênero reforça esse “valor” insinuando nas entrelinhas que você, mulher, vale menos que dois copos de bebida. Infelizmente isso acarreta em casos de exageros e abusos masculinos”.

Como aconteceu com a estudante de Jornalismo Anna Satie em 2013, que fez um desabafo em seu Facebook dois dias antes da festa ocorrer,  sobre a agressão sofrida no ano passado. “Vai chegando a Vírgula e junto com ela um aperto no peito de um desabafo que eu nunca fiz. Ano passado, eu fui à Vírgula e foi a pior festa da minha vida”, relata a universitária.

Anna conta que durante a festa foi seguida por um rapaz que tentara ficar com ela e que só parou quando sua amiga gritou com ele. Entretanto, quando a universitária ficou sozinha por alguns minutos na festa, um rapaz que ela não é capaz de identificar, agarrou-a por trás, segurou seus braços e a levantou do chão.

“Ele era bem maior que eu, me tirou do chão. Eu não conseguia me mexer. Ele não ouviu meus protestos pra me largar, e se ouviu, não ligou”, conta a estudante que sentiu-se totalmente vulnerável nas mãos de seu agressor. “Eu fiquei tão arrasada pela sensação de que eu não pude me soltar, de que eu não pude me defender, de que eu estava completamente vulnerável a alguém maior e mais forte que eu”.

Casos como o de Anna não são raros, diversas estudantes relatam abusos verbais, físicos e sexuais em festas, principalmente nas que cobram preços diferentes para homens e mulheres. Não só festas como a Vírgula possuem lotes diferenciados a partir do gênero, essa prática é comum em festas da Unesp de Bauru. Entretanto, a Vírgula foi alvo de questionamentos por possuir uma diferença abissal de preços.

Para a Doutora em Ciências Sociais, Larissa Pelúcio, que possui pesquisas no campo da sexualidade e gênero, a assimetria do preço cobrado pelo convite da festa é colocado como um privilégio, entretanto, se revela como uma armadilha.

“Dentro de um contexto universitário que o poder aquisitivo é nivelado, essa diferença do preço não é justificada e se torna um reafirmador de desigualdades. Muitas vezes a diferença é importante para se promover a justiça. Por exemplo, precisamos de maior acessibilidade dentro do campus para deficientes físicos. Nesse caso é importante ressaltar a diferença para promover direitos. Mas não é o caso da diferença de preços, pois não há motivos socioeconômicos que justifiquem o preço diferenciado”.

Nota: Nossa equipe entrou em contato com a organização do evento, porém não obteve respostas.

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