Ciências sem fronteiras, mas cheia de obstáculos

As contradições do programa de intercâmbio que exclui as áreas de comunicação, arte e saúde

Por Vítor Peruch

O projeto

O Ciência sem Fronteiras (CsF) é uma iniciativa dos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação, e foi criado em julho de 2011. O programa fornece bolsas de intercâmbio a estudantes brasileiros, de graduação e pós-graduação, que possuam bom desempenho acadêmico.

Tem como objetivo promover a internacionalização da ciência, tecnologia e inovações brasileiras; investir na formação de pessoal altamente qualificado; aumentar a presença de pesquisadores e estudantes em instituições de excelência no exterior; promover as instituições brasileiras; ampliar o conhecimento inovador das indústrias nacionais; atrair jovens talentos científicos e investidores para o Brasil.

Em um discurso em abril de 2011, a presidenta Dilma estipulou uma meta de 100 mil bolsas de estudos para enviar estudantes brasileiros ao exterior, sugerindo uma parceira entre o governo e a iniciativa privada, sendo que 75 mil dessas bolsas seriam concedidas pelo Estado brasileiro.

Os excluídos

Apesar de o programa visar o crescimento da pesquisa nacional e da profissionalização dos estudantes, ele não contempla a área das humanidades, o que provoca um questionamento sobre sua real contribuição para o desenvolvimento social, econômico e tecnológico do país.

Alunos de Publicidade, Artes Plásticas, Cinema e Jornalismo, antes, por erro de edital, conseguiam se candidatar ao intercâmbio através da categoria chamada “Indústria Criativa”. Mas, após a chamada realizada no dia 20 de novembro de 2012, juntamente a alguns cursos da área da saúde, como Enfermagem e Fisioterapia, foram excluídos do programa.

Em declaração ao jornal da Universidade Federal de Goiás (UFG), o Doutor em Sociologia e diretor da Faculdade de Ciências Socias da UFG, Luiz Mello, é enfático ao declarar que o corte dos cursos das áreas de humanas e da saúde é um problema preocupante tanto no âmbito político quanto epistemológico.

Ele destaca a importância do surgimento das novas tecnologias e de inovações para a sociedade, mas também defende que deve haver uma maior atenção para a formação humanística e ética dos cientistas e das pessoas que atuarão diretamente com o desenvolvimento desses setores.

Segundo Mello, devemos refletir sobre qual tipo de sociedade e de ciência nós queremos construir, e sendo assim, dentro dessa reflexão e entre tantas outras, as Ciências Humanas têm uma grande contribuição a oferecer a todos os que estão envolvidos no campo científico e à sociedade em geral. “Afinal, as Ciências Humanas também não são ciências?” pergunta o professor.

Experiência

Para a estudante de Jornalismo Fabiane Carrijo, o corte das bolsas para os alunos de comunicação é algo contraditório, pois é uma das áreas que mais tem a aprender no exterior, visto que muitas das universidades brasileiras encontram-se sucateadas ou com a grade curricular atrasada.

Fabiane foi uma das que conseguiram o intercâmbio através da categoria “Indústria Critiva”, e esse fato fez com que ela visse o jornalismo não só como escrever e editar matérias, mas entender que um veículo de comunicação é também uma empresa.

Dessa forma, ela percebeu que precisa dominar assuntos e termos organizacionais, saber investir e criar uma identidade para o veículo, tudo isso sem perder a ética e a essência de um bom jornalista. “Eu cresci 20 anos em 1, é incrível, aprendi muito e estou voltando com novas perspectivas!”

Tanto o Doutor em Sociologia, quanto a estudante de jornalismo deixam claro que é preciso uma integração entre as áreas de humanas, ciências e exatas para que a educação brasileira e o desenvolvimento das pesquisas acadêmicas ocorram de forma igualitária, plural e eficiente.

Para concorrer às bolsas de intercâmbio é preciso ser brasileiro, estar matriculado em um curso de nível superior e ter cumprido entre 20% e 90% da grade curricular. O aluno deve, também, se comprometer a permanecer no Brasil após a graduação por um período equivalente ao dobro da duração do curso no exterior.

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