Um país de muitas Georgettes

A aposentada Thereza Campos Mello conta as dificuldades enfrentadas por uma vizinha em tempos em que a legislação brasileira e os costumes não favoreciam a mulher

Por Ricardo Simoni

A violência doméstica causa danos irreparáveis não apenas às mulheres, mas também às  crianças que presenciam as agressões.

A violência doméstica causa danos irreparáveis não apenas às mulheres, mas também às  crianças que presenciam as agressões.

Aconteceu há mais ou menos cinquenta anos. Eu morava com meu marido e minhas duas filhas no bairro de Santana. Tínhamos uma loja de roupas nas proximidades da penitenciária do Carandiru. Minha vida era bastante corrida, a semana inteira atrás do balcão, atrás da máquina de costura ou comprando tecidos no Centro. O domingo era o dia que sobrava para lavar as roupas, cuidar da casa e fazer doces para minhas filhas. Meu marido Ciro estava escutando rádio quando ouviu alguém bater palmas no portão.

–Oh, Thereza, você está esperando visita?

-Não estou esperando ninguém…

Dei uma olhada pela janela e vi a filha do casal de franceses que moravam na vizinhança.

-É a Carol…

O Ciro, meu marido,  comentou ter escutado que os pais dela haviam discutido outra vez na noite anterior. Balancei a mão para ele parar de falar. Eu morria de pena daquela menina, tinha mais ou menos a idade das minhas filhas. Os pais dela eram muito conhecidos na vizinhança, sempre davam festas e convidavam todo mundo da rua. Mas nos últimos tempos as coisas não estavam bem… As pessoas escutavam as brigas, o barulho dos móveis e as surras que a Georgette levava. Tentei conversar com os vizinhos, mas aqueles eram outros tempos, parecia errado falar sobre as discussões dos casais mesmo quando a mulher sofria agressões. Saí até a calçada e cumprimentei a garotinha que parecia bastante assustada. Ela me estendeu a mão e pediu que eu a acompanhasse até a casa onde ela morava.

A casa parecia abandonada, subimos as escadas e eu notei o sangue nos degraus… Naquele momento eu já esperava pelo pior. Quando chegamos ao quarto do casal, a Georgette me reconheceu e chamou meu nome com dificuldade:

-Doune Thé rré ze.

Percebi que ela estava bastante fraca. O quarto cheirava a podre, o cabelo da Georgette estava entumecido de sangue, ela estava até com bicheira na cabeça. Mesmo eu sendo mais baixa e menos forte a carreguei até o chuveiro. Era difícil de acreditar que uma mulher tão bonita pudesse estar naquelas condições. Fiquei pensando o que eu poderia fazer para ajudar?  Resolvi que ela e a garota ficariam na minha casa. Mais tarde, segui até o Consulado da França para tentar buscar ajuda já que a francesa não tinha parentes aqui. O cônsul me recebeu com muita educação e eu expliquei:

-Vim aqui para falar de uma patrícia sua. Essa moça leva uma surra do marido todo dia, se a situação continuar como está ela vai morrer…

-Sou grato pela atenção da senhora em contar sobre as discussões deste casal, porém não posso interferir nesse tipo de questão. Lamento, mas não tenho como ajudar…

-O senhor não pode ajudar ou não quer? Estou dizendo que essa mulher pode morrer a qualquer momento se o senhor não tomar nenhuma providência…

-A senhora não entende…

-Natural que entendo, o senhor não vai nem tentar ajudar! Pois fique sabendo que eu sei da festa do consulado que vai acontecer daqui a alguns dias e se o senhor não tomar nenhuma providência e acontecer alguma coisa com essa mulher… Eu vou contar para todo mundo que pedi sua ajuda e que o senhor não fez nada…

Convencido a contra gosto, o cônsul aceitou seguir até Santana comigo. Com o empenho do consulado, em poucos dias, a Georgette e a Carol poderiam viajar para a França. Uma das lembranças que mais me entristece é que quando os papéis já estavam prontos, Georgette aos prantos disse que o marido voltaria a amá-la e que aquela viagem seria um erro.

“Ela parecia cega por essa convicção, nem mesmo a presença já constante da amante na casa parecia convencer minha vizinha de que aquela situação havia chegado a um nível insustentável” -  Thereza Campos Mello

“Ela parecia cega por essa convicção, nem mesmo a presença já constante da amante na casa parecia convencer minha vizinha de que aquela situação havia chegado a um nível insustentável” –
Thereza Campos Mello

Mas os dias se passaram e as duas acabaram partindo para a França. Muitos anos depois, a Cristina, minha filha mais velha, encontrou a Carol, a filha do casal de franceses, no aeroporto. Nossa antiga vizinha estava bem, contou que acabou voltando para o Brasil e que havia casado com um brasileiro. Fiquei emocionada quando a Cristina contou que a Carol lembrou de mim e agradeceu minha ajuda: – Não sei o que teria sido da gente se não fosse pela sua mãe. Quando eu soube desse comentário, percebi o quanto a história daquela menina poderia ter sido diferente. Por várias vezes a Carol ficou do lado de fora da casa correndo vários riscos e mesmo do lado de fora, a menina tinha conhecimento de toda aquela situação e sofria confusa. Meu vizinho agressor não foi para a cadeia e nem sofreu nenhum tipo de penalidade. Tive calafrios quando descobri que na França ele chegou a trabalhar como carrasco. Minha grande vitória foi ter contribuído para que a Carol deixasse de viver em um ambiente onde a violência era um ato cotidiano, praticado por alguém que ela respeitava, contra outra pessoa a quem ela também amava e respeitava.

No Brasil cresce a violência contra a mulher nas últimas três décadas 

A história de Georgette e Carol é só mais uma dentre tantas que acontecem diariamente no Brasil, há mais de cinquenta anos a estatística teima em não nos deixar esquecer da violência dentro dos lares.

Infografico - Homicidio Mulheres

De acordo com os dados de um estudo do Instituto Sangari, divulgado no ano de 2012, as agressões à mulher brasileira, ocorrem principalmente em casa, o número de homicídios de brasileiras subiu 217% entre 1980 e 2010. O Espírito Santo é o estado com maior número de mulheres executadas, Alagoas ocupa a segunda posição e o Paraná, a terceira. Num ranking de 84 países, o Brasil ocupa a sétima posição em homicídios de mulheres. A faixa etária com maior número de vítimas é a de 15 a 29 anos. Dos quinze aos cinqüenta e nove anos, o agressor normalmente é o namorado, cônjuge ou o ex-companheiro. A partir dos sessenta anos as agressões normalmente são cometidas pelos filhos da vítima. Em 51,6% dos casos de agressão atendidos houve reincidência.  A pesquisa também aponta que muitas vítimas não denunciam os agressores o que impossibilita uma mensuração mais precisa.  O Instituto Sangari também reforça que a Lei 11.340 conhecida como Lei Maria da Penha e campanhas publicitárias, ainda que sejam importantes no combate a esse tipo de violência ainda não garantem o fim das agressões. Outras formas de empenho da população e das autoridades para uma maior eficiência no combate às agressões domésticas precisam ser executadas. A educação é uma ferramenta poderosa para que uma nova postura seja adotada antes mesmo da agressão ser cometida.

Professores nas escolas, e amigos e parentes através do convívio, podem auxiliar na compreensão das jovens do que é a convivência equilibrada e baseada no respeito. Muitas vezes o comportamento explosivo frequente que o pretendente da filha ou conhecida tem em eventos e contra amigos e conhecidos (mesmo que não seja com a namorada, mesmo que tenha sido antes de eles namorarem, seja agressão verbal ou episódios de agressão física) é o sinal de que ele tem um desequilíbrio, e de que esse desequilíbrio possa vir a ser o diferencial ruim de vida ou no pior dos casos de morte da filha, da conhecida e em alguns casos dos filhos que o casal possa ter. Relacionamentos devem ter como regra número um tornar a vida melhor. Pais e amigos devem estreitar o diálogo que possibilite a observação de situações de alerta.

Agressores também estão nas classes sociais mais ricas e da dita por alguns “donos da boa aparência”. No relato contado acima o agressor possuía o padrão físico europeu consagrado por muitos e ainda assim era um agressor, inclusive com histórico de violência, já que trabalhou como carrasco. A diferença é que se o dinheiro e a beleza física mesmo não sendo eternos são reconhecidos por alguém como valores fundamentais, os próprios valores da futura vítima já a tornam presa fácil de agressores. Ciúme não pode ser motivo para a mulher não trabalhar fora, obrigar alguém a ser submisso já é uma forma de violência.   Na dúvida peça orientação, na certeza de agressão disque 180 e denuncie.

Outras informações no Estudo publicado pela Organização Mundial de Saúde

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