Mulher palestina diz viver no paraíso após separação

Reem conta ter passado 27 anos sem ver a família, impedida pelo marido

Por Willy Delvalle

Reem Kamel. Este é o nome da mulher palestina que se casou e veio com o marido para o Brasil há mais de 30 anos. Impossibilitada de ver a família, isolada e deprimida pediu a separação, enfrentando preconceito da árabe. Tornou-se uma atleta corredora e ganhou prêmios. Recebeu críticas pela trajetória que escolheu. Mas acredita que hoje é bem aceita na comunidade árabe. Para ela, sua liberdade tornou-se alvo até de uma certa inveja dentre as mulheres. Reem tem convicção de que optou pelo caminho da felicidade.

Sua história começou em Jerusalém, onde nasceu, 50 anos atrás, apesar de não aparentar. Pouco depois, mudou-se para a bíblica cidade de Jericó, aquela que pode chegar a 44 graus centígrados no verão, conta. Casou-se ainda jovem e mudou-se para Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com o Paraguai e a Argentina. Formou sua própria família. Mas passou 27 anos sem ver os familiares, que ficaram na Palestina. O motivo seria a discordância do marido: “Ele tinha receio de que se eu voltasse para a Palestina para visitar minha família, não voltaria mais para ele, aqui no Brasil. Por isso, nunca deixou”, revela.

O reencontro com a família veio em 2012, “assim que me separei”, relembra Reem. Foram quase quinze anos até conseguir a “separação”.

“Foi um período muito difícil na minha vida”

É assim que Reem classifica os últimos anos do casamento. A tristeza era predominante, desabafa: “como não podia contar com apoio, nem de pai, nem de mãe, nem de tio, ninguém daqui que pudesse me defender, eu suportava”. Seu alicerce eram seus filhos, ainda crianças. A comunidade árabe em Foz do Iguaçu, uma das maiores do Brasil, não a apoiou nas tentativas de separação, relata: “consideram uma desonra para a família a mulher tomar a iniciativa de pedir a separação. Há muito preconceito quanto a um pedido de divórcio partir de uma mulher e por isso são criados mil obstáculos. Já se for o contrário, um pedido de divórcio por parte do marido, a separação se faz rapidamente”.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Maratona no Parque Nacional do Iguaçu. Ao fundo, as Cataratas, em Foz do Iguaçu (PR), onde Reem mora há 31 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)

Reem diz ter apelado diversas vezes ao sheik, na Mesquita Árabe da cidade, “mas ele nunca tentou entender o meu lado, sempre insistindo que eu devia obediência ao marido. A mulher árabe, mesmo aqui em nossa comunidade, infelizmente ainda não é tratada como tendo os mesmos direitos do homem. Mas fico feliz que agora as coisas estão mudando, aos poucos, mas mudando. Embora ainda com alguma resistência, as mulheres árabes aqui já podem trabalhar, estudar, viajar e, se precisarem, podem recorrer à separação conjugal. Atualmente, a comunidade árabe me aceita melhor e também me apoia, me vê com outro olhar”, analisa.

Para a separação oficial, Reem recorreu a um advogado, que lhe explicou, no entanto, que um juiz brasileiro não poderia desfazer um casamento estrangeiro, o que, no caso, só seria possível por meio do sheik. O marido acabou deixando a casa em que moravam para ela e os filhos. Foi embora. Para oficializar o rompimento, seria necessária a presença dele. E contato com ele era justamente o que ela não queria, como ainda não quer. Resultado: a separação oficial nunca ocorreu: “Infelizmente”, opina Reem. “Vivo com meus queridos filhos, sou livre e feliz, super, hiper, mega feliz. Casamento, nunca mais. Amo minha liberdade. Jamais vou permitir que a retirem de mim. Estou separada há seis anos e me sinto feliz vivendo assim”, conclui.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Compras em Jerusalém. (Foto: Arquivo Pessoal)

“Apenas uma indumentária, um traje típico”

É assim que Reem vê o véu. Ela não concorda com o significado da vestimenta para o islamismo: “De que a beleza da mulher árabe deve ser reservada exclusivamente para o marido. Não considero pecado uma mulher ser bonita e apresentar-se como tal. Pra mim, pecado é a gente fazer o mal, machucar os outros, matar, ofender”. Reem afirma que, durante muito tempo, sentiu na pele o preconceito por ter se tornado uma atleta. Pergunto se já recebeu ofensas pelas roupas típicas de corrida. É enfática ao responder que sim. Diz ter sido ofendida e discriminada por não usar o véu, nem roupa longa: “Enfrentei muitas dificuldades pra chegar até aqui. Sofri, chorei, mas consegui. Nosso caráter e dignidade não se classificam pelas roupas que usamos, mas sim pelas nossas atitudes, pela maneira como agimos e pelo que temos no coração. Tenho orgulho de mim. Tenho minha liberdade e sou feliz. Hoje sei que tem muitas mulheres árabes gostariam de sentir a mesma liberdade que sinto. A liberdade que conquistei, apesar do sacrifício, muitas ainda não conquistaram.”

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Reem visita Mosteiro de São Jorge, em Jericó, Palestina. (Foto: Arquivo Pessoal)

Assim como vestir o véu, Reem também se afastou de outras tradições muçulmanas. Não só ela, mas também os filhos. Se por um lado, a mudança é motivo de pesar, por outro “muitas coisas eu não aceito e acho ultrapassadas e se eu as seguisse, não seria eu mesma, sentir-me-ia infeliz ao fazer o que me mandam fazer apenas para cumprir a tradição e não viver a liberdade de escolher o que e como quero fazer”.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Reem já ganhou diversos prêmios em maratonas, como na Corrida da Polícia Militar, em 2011. (Foto: Arquivo Pessoal)

Terra-natal

Na volta a Jerusalém, no ano de 2012, encontrou uma sociedade “muito rígida”, enfatiza. Na capital, onde moram dois irmãos de Reem, ainda assim, “as pessoas têm a cabeça mais aberta em relação a outras regiões árabes”, referindo-se a quem mora em Jericó, cidade em que vivem os outros três irmãos e a mãe. “Queriam que eu usasse véu depois de tanto tempo”, revela.

Reem planejava participar da Maratona de Jerusalém no ano que vem, mas, ainda no Brasil, sofreu uma lesão durante uma corrida e adiou os planos: “Se Deus quiser, em 2017 estarei lá”.

Perguntada se voltaria a morar em sua terra natal, Reem diz preferir o Brasil: “Aqui, eu moro. Aqui, meus filhos, meus amigos, meu trabalho estão. Aqui quero ficar. Voltar para o meu país? Quero sim… Mas apenas visitar. Não conseguiria viver lá. Muitas guerras e sem paz. Infelizmente, essa guerra nunca vai acabar”, prevê. “Desde 1945 e até agora, cada dia mais e mais, é tensa a guerra lá. Não tem uma família que não tenha perdido familiares. Tantos órfãos… Pais perderam os filhos e as casas e seus bens. As crianças nascem com sede de vingança. E com toda razão” avalia. Ainda assim, Reem é otimista: “não perco a esperança de ver meus pais livres da guerra e ver meu povo feliz e as crianças voltando a sorrir e tendo um futuro melhor”.

“Sangue azul, sangue árabe”

Reem se define como “mulher árabe naturalizada brasileira, alguém que tem orgulho do seu país e tem sangue azul, sangue árabe… mulher lutadora, guerreira e vencedora. Lutei sozinha contra uma tradição ultrapassada onde mulher não pode trabalhar, não pode se separar, não pode morar sozinha, sair sozinha, viajar sozinha. Lutei, lutei, enfrentei e consegui. Sem prejudicar quem quer que seja, fiz e estou fazendo o (que) me dá prazer… como correr… pedalar…nadar … fazer ginástica na academia… viajar…”, descreve. Em sua autodefinição, está a Palestina: “Tenho esperança de ver meu país livre e que possa um dia levar meus filhos para conhecer a terra da mãe deles”.

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