Equipe treina professores em comunidades ribeirinhas do Norte

Voluntários saíram do sul do Brasil e viveram experiência transcultural do clima ao comportamento humano

Por Isabela Ribeiro

Uma equipe multidisciplinar de profissionais do sul e do sudeste do Brasil retornou no dia 14 de julho de uma viagem missionária às regiões ribeirinhas do norte do país, onde realizaram trabalhos na área de educação infanto-juvenil. Os missionários experimentaram o estilo de vida ribeirinho em todos os aspectos e identificaram necessidades básicas da população, com o intuito de dar continuidade ao trabalho.

Cada membro da equipe foi responsável por levantar o próprio sustento para o trabalho voluntário. Três pedagogas, um enfermeiro, um biólogo e uma jornalista, saíram no dia 3 de julho de Curitiba (PR) e de Bauru (SP) e visitaram comunidades de ribeirinhos do estado do Pará e do Amapá, a fim de treinar e capacitar líderes e professores de crianças.

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(Foto: Isabela Ribeiro)

A pedagoga Nádia Cristina Opalinski, de 45 anos, mora em Curitiba (PR) e desenvolve trabalhos há mais de 30 anos com crianças e adolescentes. Nádia esteve na coordenação da equipe e, através da contação de histórias com abordagem lúdica e criativa, ofereceu aos educadores nortistas técnicas para o aprimoramento da prática pedagógica nesta área. ‘’Contar histórias é uma prática muito antiga que encanta o público e tem o poder de mexer com nossos conteúdos afetivos, provocando reflexão, transformação, bem como a possibilidade de reelaborar conceitos’’, disse.

Segundo Nádia, a falta de formação na área da educação, o pouco repertório dos professores e o sentimento de incapacidade dos educadores das regiões ribeirinhas são umas das maiores necessidades identificadas, e decorrentes da falta do incentivo à leitura, prejudicando a elaboração do pensamento crítico reflexivo. ’’É urgente a aplicação de políticas públicas que possibilitem um plano de carreira aos profissionais da educação tanto em áreas formais como em áreas não formais, sendo estendido especialmente às áreas ribeirinhas, com a possibilidade de ensino presencial e a distância em nível técnico, graduação e pós-graduação’’, comentou.

A equipe enfrentou outros desafios durante a viagem além dos trabalhos na área da educação. Os voluntários visitaram três comunidades ribeirinhas e precisaram se alimentar daquilo que a floresta oferecia. Entre os principais alimentos estiveram o açaí, o peixe, farinha de mandioca e de tapioca, carne de caça e camarão. ‘’Eles dividiram conosco tudo o que tinham. A comida dos ribeirinhos é natural e isso é valorizado por eles. Fome ninguém passa, eles estão cercados pela comida que consomem’’, disse o biólogo Lucas Maracci, de 24 anos.

Nas comunidades ribeirinhas a energia depende de um gerador, ligado apenas durante à noite por fazer uso do óleo diesel, uma das despesas mais altas para os moradores. ‘’Quando o gerador era ligado, todos corriam para carregar seus celulares e equipamentos eletrônicos. Não há geladeira lá. Os alimentos perecíveis são conservados com sal, mas também são consumidos rapidamente pois eles não precisam armazenar nada, a comida sempre está disponível na natureza’’, continuou Lucas.

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(Foto: Isabela Ribeiro)

Outra realidade encontrada pela equipe foi a taxa alta de gravidez e casamentos na adolescência. Meninas a partir dos 13 anos já engravidam e passam a morar junto com meninos também adolescentes. Uma das meninas atendidas pela equipe tinha apenas 15 anos e já estava em seu segundo casamento. Ela mora com um rapaz de 18 anos e, de acordo com Nádia, justifica o fato dizendo ter sido abandonada pelos pais e precisar de alguém para cuidar dela. A menina já engravidou duas vezes, mas perdeu os bebês pois seu útero não segurou a gestação. A jovem chegou a procurar orientação médica mas foi informada de que não precisava se preocupar em se prevenir pois, mesmo se engravidasse, não seguraria o bebê. A prevenção só seria necessária após os dezoito anos de acordo com o médico.

O incesto e casos de pedofilia também são frequentes na região. De acordo com a equipe, a sexualidade é desenvolvida muito cedo e adolescentes vivem como adultos tanto nessa área como em outras esferas da vida. ‘’As pessoas começam a trabalhar muito cedo e a ter responsabilidades de adultos ainda crianças. Os homens fazem todo o trabalho pesado de pegar açaí, caçar, carregar peso, construir. Fazem uma academia natural o dia todo. É muito comum ver homens idosos com corpos sarados”, diz.

Já as mulheres cuidam mais de serviços domésticos como fazer comida, lavar roupa, cuidar dos filhos. “E como elas tem muitos filhos, o corpo de desgasta bastante, então temos uma realidade onde o homem continua bonito e a mulher aparenta ser bem mais velha que ele, o que colabora para o interesse dos homens por mulheres bem mais jovens’’, explicou Lucas.

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(Foto: Isabela Ribeiro)

O estilo de vida dos povos ribeirinhos, as riquezas do lugar e das pessoas e as necessidades urgentes da população despertaram na equipe o desejo de continuar o trabalho na área da educação. ‘’Este é um povo muito rico. A exuberância da fauna e da flora é enorme, mas eles têm limitações na área de saneamento, nas partes estruturais, em moradia, coleta de lixo, tratamento da água, tecnologias. Essas coisas só evoluem com educação. O desenvolvimento acontece através do conhecimento’’, falou Nádia.

O grupo irá editar um documentário produzido durante a viagem sobre educação nas comunidades ribeirinhas e pretende buscar parcerias com instituições de ensino e universidades para levar o ensino o técnico e a graduação para regiões ribeirinhas, além de um centro de capacitação de professores oriundos dos rios. ‘’Queremos desenvolver um projeto de educação que contemple a saúde integral, física, emocional, cognitiva e psicossocial dos moradores, de forma que haja uma promoção humana de duma vida e prática cidadã de qualidade e relevância’’, concluiu a pedagoga.

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