“A vida é muito forte”, diz húngaro ao relembrar infância na II Guerra Mundial

Durante o conflito, família foi do luxo na Hungria à fome na Áustria

Willy Delvalle

Nikolaus Bauernebl tem uma memória muito viva da infância. Pelo que viu, é difícil imaginar o contrário. Morava em Kosice, então território húngaro. O ano era 1939. O dia estava ensolarado. Ouviu barulho de aviões. “Eram três”, lembra: “Meu pai pertenceu a um grupo de canhões aéreos e me falou ‘corre rápido e traz o meu binóculos’. Peguei. Ele olhou e disse ‘são alemães’. De repente, estrondo pra todo lado. Ele falou ‘corre logo’. Os aviões bombardearam a cidade. Muita gente morreu.” O que Nikolaus via, aos seis anos de idade, era o início da II Guerra Mundial.

Sua família tinha uma cervejaria pioneira na Hungria. O pioneirismo era resultado de 300 anos de uma tradição com início na Bélgica, vendo em terras húngaras a chance de prosperar. Haviam conseguido. “Tínhamos uma casa bastante grande. Minha mãe tinha 5 empregados. De uma vez, perdemos tudo”, recorda-se Nikolaus. Os pais resolveram fugir para a Áustria: “Ficamos morando em uma casinha… Um quarto, três por três metros; três crianças faziam as tarefas… Dormiam os cinco (os irmãos, a mãe e o pai) no mesmo espaço”, descreve.

“Naquela época, eu já tinha 12 anos. Achei absolutamente normal. A vida é muito forte. A vontade de viver era muito grande”, avalia. “A vida era completamente ligada à guerra. Eu conhecia todos os tipos de tanques, russos, alemães, húngaros… Eu os desenhava”, relata.

Sobre o começo da guerra, “parece que foi poucos anos atrás. Lembro de tudo”, conta Nikolaus. “Ninguém estava nos abrigos. Estavam todos na rua. Bombardearam os lugares onde havia maior concentração de pessoas. Fiquei sem ir à escola. Fiquei super assustado”, explica. Voltou às aulas dias depois. “Houve mais bombardeios. Quantas vezes eu estava andando de bicicleta e a gente escutava o barulho das metralhadoras no paralelepípedo?” relembra. “Não podia acender as luzes; faróis de carro tinham que estar baixos”, detalha.

A pequena Kosice, hoje pertencente à Eslováquia, era deixada para trás. A família decidiu viver perto do vilarejo de Traunkirchen, na Áustria. Nikolaus lembra com fascínio da lagoa existente no local: “tinha 22 quilômetros”. A beleza contrastava com a fome: “Logo depois da guerra, passamos muita”, comenta.

A cervejaria de Nikolaus batizada de Servus Bier retoma a tradicao familiar depois de 68 anos. (Foto: Willy Delvalle)

A cervejaria de Nikolaus, batizada de Servus Bier, retoma a tradição familiar depois de 68 anos. (Foto: Willy Delvalle)

O então adolescente diz que a adaptação foi rápida: “Aprendemos a falar o alemão. Meu pai falava muito bem. A gente praticava muito esporte, muita natação, andava de barco, caiaque…”. Por ser húngaro, “A gente sofreu preconceito, mas muito pouco”, opina.

E não apenas os húngaros sofreram. Nikolaus alega que sabiam da existência de campos de concentração, mas não do que acontecia lá dentro: “Vimos judeus na Hungria sendo recolhidos em guetos, transportados para Auschwitz. Na Áustria, a uns 4 quilômetros de onde morávamos, havia um campo de concentração: de políticos, presos… Câmeras de gás? A gente não sabia. Ninguém falava sobre isso. Descobrimos depois da guerra as barbaridades que cometiam”. O resultado do conflito: “Não andava trem. Não tinha ninguém trabalhando. Quatro ou cinco homens resolveram constituir uma prefeitura na cidadezinha onde eu morava.

Era muito pior nas cidades grandes: 95% destruído, tudo bombardeado”, ressalta. Aos 17 anos, Nikolaus estudou cervejaria, a tradição da família. Viu um anúncio no jornal que mudaria sua vida de novo: uma companhia de cervejas montaria uma fábrica nos arredores de Viena e instalaria uma filial em uma cidade chamada Agudos (SP), no Brasil. Nikolaus se candidatou e passou. Foi com um colega. Cruzou o Atlântico: “Cheguei no dia 25 de setembro de 1953 em Santos. Ficamos uma semana. A viagem foi muito boa. Segunda classe. A gente encarava como aventura. Sempre gostei do movimento.

Era esportista”, recorda. “Não tive enjoo em nenhum dia. Só tempo bonito. Sol e um pouquinho de vento. Era tudo novidade. Durante a guerra, a gente quase não viajou para lugar nenhum. Turismo era muito perigoso”, esclarece. Só havia um incômodo na viagem de trem, a caminho da região de Agudos: “Tinha janelas panorâmicas… Primeira classe. A única coisa que perturbou a gente era ter que usar gravata, naquele calor. O chefe do trem passava e reclamava, pedindo para colocarmos. Colocávamos de novo”.

Em Agudos, Nikolaus se estabeleceu: “A vida em Agudos era gostosa. Gente muito boa. Em três dias, eu já era sócio do Tênis Clube”. No início, “em volta da cervejaria, estava cheio de cobra. Com um laço, a gente mandava todas para o Butantã”, acrescenta.

Casou-se com uma brasileira. Especializou-se na Alemanha. Voltou ao Brasil. Conquistou um importante cargo em uma companhia de cervejas. Fundou sua própria cervejaria, artesanal, na cidade vizinha, Bauru (SP). Depois de 68 anos, era o retorno à tradição da família.

Na parte superior da cervejaria está a casa onde vivia Nikolaus na Hungria bem na esquina. (Foto: Willy Delvalle)

Na parte superior da cervejaria, está a casa onde vivia Nikolaus na Hungria, bem na esquina. (Foto: Willy Delvalle)

Nikolaus voltou à Áustria por diversas vezes. Para ele, é o melhor lugar do mundo. Afirma ter procurado evitar viagens a outros países da Europa para poder ficar com os pais. Não é um homem de se lamentar. “É saudosista”, diz uma das netas, brasileira. E otimista: “o maior aprendizado que tive foi quando estivemos na Áustria como refugiados”, revela. “Na Hungria, meu pai, como dono de cervejaria, e minha mãe, como primeira-dama, tinham muitos compromissos. Muitas vezes, só via meu pai na hora da janta. Ficávamos muito órfãos. Mesmo passando por maus bocados na Áustria, éramos felizes porque estávamos junto deles”.

Húngaro de nascimento, sente-se hoje um brasileiro. Aqui, “realizamos o sonho de construir essa cervejaria. Acredito que meus filhos vão manter meu legado”.

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