Agregar valor ao café: um sonho antigo

Por João Pedro Ferreira e Marcos Cardinalli

A situação a seguir pode parecer simples, mas é de difícil execução no Brasil: produzir uma mercadoria agrícola e, ao invés de exportá-la, desenvolver a economia interna e vender um produto pronto para o consumidor final.

O desafio de sair do básico

Foto: João Pedro Ferreira

Foto: João Pedro Ferreira

Com o avanço tecnológico, a agropecuária brasileira vem se desenvolvendo e investindo muito em pesquisas científicas, em busca de maior produtividade e qualidade e menor impacto social e ambiental. Entretanto, mesmo com grande desenvolvimento no cultivo e produção agropecuária, o principal desafio do Agronegócio brasileiro não para aí. Segundo o jornalista especializado Ronaldo Luiz, o Brasil deve também vender produtos acabados, e não apenas matéria prima, agregando valor à produção brasileira. Para Mônica Bergamaschi, ex-secretária de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, esse desafio é um problema desde a abertura do mercado externo nacional, que favorecia a matéria-prima e não o produto acabado, faltando estratégia nacional. Isso acontece com uma das principais commodities brasileiras: o café.

De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Brasil é líder mundial na produção e exportação de café verde, mas ganha pouco com a exportação do café solúvel e torrado. Em 2014, o preço médio por saca (60kg) obtido com a exportação de café em grãos foi de US$182, enquanto o valor obtido com café torrado foi de U$$368 e o de café solúvel foi de US$173, segundo dados do “Informe Estatístico do Café” feito pelo MAPA. A oportunidade de conseguir captar o dinheiro que é gerado fora do nosso país parece interessante, mas os nossos agricultores e produtores industriais sofrem com inúmeros empecilhos que travam esta equação.

Quantidade de café verde exportada é absolutamente maior a de solúvel e torrado

Quantidade de café verde exportada é absolutamente maior a de solúvel e torrado (Gráfico: João Pedro Ferreira e Marcos Cardinalli)

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) lançou um estudo, em agosto de 2015, no qual citou diversas das dificuldades do mercado nacional. Uma delas é que os compradores tradicionais do café brasileiro (União Europeia, Estados Unidos e Japão), além de altíssimos impostos sobre a importação de café torrado e moído, exigem o atendimento a diversas normas e padrões de qualidade, saúde, segurança e sustentabilidade, que para serem atendidos, requerem investimentos em tempo e dinheiro.

Devido a essas exigências, são poucas as empresas que dominam o comércio mundial de café, por já serem reconhecidas pelos consumidores. Essas poucas empresas geralmente são multinacionais, aumentando a sua força de competição, por estarem estabelecidas em vários países exportadores de café e controlarem parte da cadeia de suprimento. E como os principais fornecedores do café torrado e moído são grandes varejistas que, por sua vez, vendem ao consumidor final, compram o café em grandes quantidades, pressionando o preço para baixo, o que desfavorece pequenas e médias produtoras e fortalece as empresas já consolidadas.

Foto: Marcos Cardinalli

Foto: Marcos Cardinalli

Quem pensa que a ideia de agregar valor ao nosso café é recente se engana. A noção que a “bola da vez” é exportar café industrializado ao invés do café verde já passou por pesquisa e discussão no setor político diversas vezes. Em 2002, no fim do governo de Fernando Henrique Cardoso, o MDIC lançou uma cartilha ensinando o produtor a agregar valor ao seu produto. O material foi produzido pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) e pela Secretaria de Desenvolvimento da Produção (SDP). O ministro da pasta na época, embaixador Sergio Amaral, justificou o material declarando: “No caso do café vemos um caminho claro: a agregação de valor. Nós exportamos muito, mas temos que nos concentrar hoje em como exportar melhor”.

No mesmo ano, a Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX-Brasil) do MDIC e a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) firmaram um convênio chamado “Programa Setorial Integrado para a Exportação do Café Torrado e Moído”, no intuito de aumentar e valorizar a fraca produção de café industrial brasileiro para exportação. Segundo dados da ABIC, os valores das vendas entre 2002 e 2008 saltaram de US$ 4 milhões para US$35,6 milhões, com número recorde de volume e receita. Entretanto, em 2009, como consequência da crise financeira global, a exportação do café torrado e moído sofreu um baque, assim como a de café solúvel e a de café verde, que tiveram faturamentos menores. Nos anos seguintes, apenas o café torrado não conseguiu voltar aos patamares anteriores e até mesmo superar os anos “pré-crise”. Em 2014, o Brasil arrecadou apenas US$ 11,4 milhões com a venda de café torrado, o que evidencia a dificuldade nacional em vender para o mercado externo.

Foto: João Pedro Ferreira

Foto: João Pedro Ferreira

Perspectivas de crescimento

Apesar das dificuldades em agregar valor ao produto nacional, as perspectivas para o café brasileiro são positivas, segundo o estudo do MDIC. Um consumidor cada vez mais exigente desenvolve um mercado mais competitivo e com novos desafios, especialmente no que se refere à responsabilidade social e ambiental. A demanda por cafés com identificação de origem aumenta, valorizando os países exportadores. Entretanto, ainda é baixa a disponibilidade de capital para financiar a adequação às exigências dos importadores, dificultando a entrada de empresas que almejam exportar. Mesmo sendo necessário um investimento de US$50 milhões para construir em médio porte uma fábrica de café solúvel, em outras partes do mundo a construção de novas unidades é realidade atual.

É importante ressaltar que parte da população mundial ainda não consome café, o que gera uma brecha no mercado, criando oportunidades importantes longe do mercado tradicional. Vêm aumentando também as demandas de consumo dos mercados asiáticos emergentes, como China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia e Tailândia, que formam um mercado promissor. Segundo a Organização Internacional do Café, o consumo de café na Ásia cresce cerca de 4,9% ao ano, a partir de 2000 e, apesar de atualmente representar em média apenas 14% do consumo mundial de café, é uma região que possui alto crescimento no consumo. Se esse índice persistir, considerando a numerosa população asiática, a região poderá consumir, no ano de 2020, entre 28 e 30 milhões de sacas de café.

Aumento do consumo de café por região entre 2011 e 2014. Dados da Organização Mundial do Café.

Aumento do consumo de café por região entre 2011 e 2014. Dados da Organização Internacional do Café. (Gráfico: João Pedro Ferreira e Marcos Cardinalli)

Para que o Brasil conquiste o mercado externo com produtos de valor agregado, é importante um grande investimento em marketing a longo prazo. É necessário tempo para divulgação e consolidação da marca brasileira no exterior, para que o consumidor troque a que consome atualmente pela brasileira. Os setores público e privado devem traçar um planejamento estratégico, com recursos financeiros e humanos, para dar suporte à produção do café torrado e moído no Brasil, para então ser exportado. É preciso ainda desenvolver uma legislação que estimule as indústrias a atenderem às normas de qualidade exigidas por diversos países, para não esbarrar em barreiras além das tarifárias.

Foto: João Pedro Ferreira

Foto: João Pedro Ferreira

Em entrevista à Agência Brasil, o diretor da ABIC, Nathan Hersvkowicz, citou como uma das alternativas propostas para aumentar a participação nacional no mercado mundial, a compra de empresas ou marcas já consolidadas fora do Brasil por investidores brasileiros, pois seria “muito mais eficiente e menos custoso do que construir a partir do zero”.

Outro entrave dito por Nathan é o fato de 80% do setor de café nacional ser composto por micro e pequenas empresas que não possuem cultura e nem estrutura exportadora. Por outro lado, os investidores internacionais, como a Nestlé, informam interesse em aumentar sua participação no Brasil, mas acabam relutantes devido às limitações legais e barreiras financeiras para importar café verde e produzir tipos diferenciados de café. Os fazendeiros temem a liberação por medo de uma possível concorrência desleal com países como o Vietnã. Mesmo assim, no final de 2014, a Nestlé anunciou, com a presença de seu presidente Paul Bulcke, os planos da primeira fábrica de cápsulas de café fora da Europa. O plano seria instalar a fábrica em Montes Claros (MG), com expectativa de utilizar na produção 10% de café exportado.

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