A festa do samba que não vai parar

Há poucos dias dos desfiles, o carnaval bauruense mexe com ânimos e expectativas

Lucas mendes

Bauru ferve cultura. Seja qual for a manifestação artística ou linguagem cultural, a “Cidade sem Limites” tem um efervescente cenário criativo, moldado historicamente nas idas e vindas da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e que provam há tempos que o Interior Tem Voz, e muita.

Tem um ditado que corre pelo nosso país, segundo o qual “o ano só começa depois do carnaval”. Para além do bem e do mal, essa frase definitivamente não se aplica àqueles que estão envolvidos com o carnaval.

“Tentar começar antes a gente tenta, vamos devagar, mas o grosso mesmo é quando vira o ano, porque aí até o pessoal começa a falar em carnaval, antes disso é ano novo, natal, nem se fala em carnaval”.

É o que diz Gisele Barone, da Escola de Samba Tradição da Bela Vista. “Mas a gente da Escola, nos bastidores, vamos fazendo as coisas que temos recursos, reaproveitamos material que sobrou e tamo na correria aí, tamo trabalhando!”, completa ela.

Este ano o carnaval veio mais cedo, logo no começo de fevereiro. Em Bauru, os desfiles das Escolas de Samba e Blocos Carnavalescos vão acontecer no sábado, dia 6 e domingo, 8.

Também a organização do carnaval demanda um tempo de dedicação. Desde meados de janeiro a Secretaria de Cultura já começa os preparativos da festa, seja com manutenção do sambódromo, ou levantando nomes para o júri dos desfiles.

Palco do samba

Falar da história e importância do carnaval bauruense é falar um pouco sobre o sambódromo. A passarela do samba de Bauru foi a segunda a ser construída no país, atrás apenas da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro.

A avenida tem 800 metros de cumprimento, e uma capacidade nas arquibancadas de cerca de 10 mil pessoas. O atual sambódromo foi construído em 1990, obra do polêmico prefeito Antônio Izzo Filho, que chegou a ser afastado do cargo e preso, devido a desvios de verba.

IMG_0500

Publico acompanha atentamente a escolha dos novos Rei e Rainha do carnaval. Capacidade nas arquibancadas do sambódromo é de 10 mil pessoas. (Foto: Lucas Mendes)

Toda essa tradição não impediu que o carnaval no sambódromo fosse cancelado. Em 2001, em meio a falta de verbas, como justificou a prefeitura na época, o repasse de verba da prefeitura para as agremiações foi interrompido, e os desfiles, cancelados.

A folia só voltou a acontecer em 2010, já na gestão Rodrigo Agostinho (PMDB). No ano seguinte voltaram os desfiles competitivos, com a Escola Azulão do Morro sagrando-se campeã.

“É essencial [a subvenção da prefeitura]”, reconhece Gisele. “Muitos alegam que as Escolas têm que vir por conta própria. Negativo, porque São Paulo e Rio, que são o berço do carnaval, recebem a subvenção, e não abrem mão disso”, explica ela, e continua: “Bauru como é uma cidade bem menor tem que ter ajuda, por que por mais que a gente faça evento é irrisório o que a gente arrecada, e a subvenção que a prefeitura ajuda é o que dá uma alavancada”.

Preparativos

Há duas semanas do início dos desfiles, a cidade pôde fazer um “esquenta” para o carnaval. No sábado, 23, no próprio sambódromo, aconteceu a tradicional festa de escolha do Rei Momo e Rainha do Carnaval bauruense.

IMG_0882

Realeza completa do Carnaval 2016 em Bauru. Na foto, Danielly Angell, Edmar da Silva, Drieli de Souza, Dirce de Albuquerque e Arnaldo Frabetti. (Foto: Lucas Mendes)

Aproximadamente 4 mil pessoas compareceram nas arquibancadas e na avenida do samba pra acompanhar as apresentações. O público estava em peso, seja de forma independente ou fazendo parte das agremiações, animando e torcendo pelos candidatos.

Com um total de 12 participantes (9 candidatas à Rainha e 3 candidatos à Rei Momo), eles representaram cinco escolas e quatro blocos carnavalescos. Os candidatos foram avaliados por uma Comissão Julgadora formada por cinco jurados.

Venceram a disputa o Rei Momo Edmar Donizete da Silva, de 33 anos, representante a escola Acadêmicos da Cartola e a Rainha Drieli Pereira de Souza, de 24 anos, representando a Mocidade Unida da Vila Falcão.

Juntamente com os dois, formam a realeza do carnaval os Rei e Rainha da Melhor Idade, escolhidos pela Associação dos Aposentados, Pensionistas e Idosos de Bauru e Região (AAPIBR), Arnaldo Frabetti e Dirce Lúcio de Albuquerque. Também faz parte a Rainha da Diversidade Danielly Angell, escolhida em concurso feito na Labirinthus.

“Não houve uma escolha de várias pessoas, foi só a gente mesmo, mas é só alegria e satisfação. Essa é uma experiência nova, nós participamos de outros concursos, como o Miss e Mister 3ª Idade, então essa experiência já temos”, disse Arnaldo Frabetti, logo depois de desfilar com a realeza do carnaval lá no sambódromo.

Expectativas

“Estou felicíssimo!”. Assim Jorge Santtanna define sua situação na folia bauruense. Carnavalesco do bloco “Pé de Varsa”, este ano ele também cuidará do carnaval da Mocidade Unida da Vila Falcão, escola que ele retorna depois de 25 anos.

“Sou carnavalesco da Mocidade Unida, assumi este ano o carnaval. Temos feito um projeto incrível dentro de um enredo chamado “Asas, pra que te quero – o eterno sonho de voar”.

A Mocidade reestreou em 2015 no carnaval de Bauru. Por conta disso, não recebeu a verba da prefeitura para o desfile. Contudo, atingiu o respeitável vice-campeonato, atrás apenas da campeã Cartola.

“A expectativa é a mesma do ano passado, de sairmos e fazermos um bom carnaval”, diz Jair Odria, presidente da Mocidade Unida da Vila Falcão. “Estamos fazendo um bom trabalho e da maneira que nós o apresentarmos é que dará os frutos, porque só o trabalho não ganha. Tem que ter todas as alas, todos os componentes encenando bem, todos os carros bonitos e as fantasias também para que o conjunto nos dê a possibilidade de, junto com as outras, disputarmos o título”, pondera ele.

Já o carnavalesco Jorge se mostra confiante. “Eu costumo dizer que eu não faço carnaval pra perder”, garante. “Eu seria muito hipócrita se dissesse que faço pra competir, etc. Eu tenho 25 anos de carreira, sou um profissional muito maduro, respeito os meus concorrentes porque são todos amigos, mas faço um carnaval competitivo e campeão sim. A vitória pode vir ou não, mas eu me satisfaço com um grande trabalho”.

O sentimento de preparação é bastante intenso nesses dias que antecedem os desfiles. “É reta final, não tem mais dedo pra queimar em cola quente”, brinca Claudio Roberto Goya, professor da Unesp e carnavalesco da Coroa Imperial. “Mas estamos finalizando a escola. Graças à Deus pra mim só falta dois destaques e a comissão de frente, então eu acho que a gente vai conseguir terminar bonitinho”, diz ele.

A participação do professor no carnaval faz parte de um projeto de pesquisa e ele atua com seus alunos no projeto de extensão Labsol, juntamente com a comunidade da Escola de Samba. “A gente conseguiu implantar na Escola a ideia do reaproveitamento, da reciclagem, da ideia de repensar”, explica ele. “Então este ano quem for ver o desfile vai ver que mais de 60% é material já utilizado e tá voltando para a academia. Tem uma peça que já é o quarto ano que tá vindo com a menina – lógico que mudada e repaginada. Assim a gente consegue fazer um carnaval sustentável”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s