Gonçalo Colhado: Veterano da II Guerra

Por Bernardo Fontaniello

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Gonçalo Colhado no dia da entrevista (Foto: Bernardo Fontaniello)

Já tinha um tempo que eu queria conversar com seu Gonçalo Colhado, avô de minha amiga Erika, sobre sua participação na Segunda Guerra. Marquei um dia com ele, pois apesar da idade, noventa e três anos, seu Gonçalo não para em casa. Segui da minha casa até o frigorífico do Marcelo, filho do seu Gonçalo – eles moram no andar de cima. O veterano de Guerra estava no sofá da sala quando eu entrei. Olhando não dá para perceber que ele já tem toda aquela idade, realmente aparenta ter uns setenta e poucos. Ele me cumprimentou e foi ao quarto buscar algumas fotos, uns informativos da FEB – Força Expedicionária Brasileira – e uma edição de revista com o Hitler na capa. “Aí, o homem que comandou a guerra. Você já tinha visto ele?” me perguntou com a revista nas mãos. “Ele e o Mussolini no dia do desfile deles”.

Seu Gonçalo me mostrou fotos do aniversário de Poços de Caldas, quando desfilou com veteranos num jipe de guerra. Em eventos como 7 de setembro, aniversário da cidade ou comemorações militares, seu Gonçalo sempre é chamado para participar. Ele, então, segue um ritual, como se estivesse na ativa das Forças Armadas. Veste sua melhor farda, calça a bota perfeitamente engraxada, prepara a bandeira do Brasil e com a boina da FEB em mãos, entra no fusquinha 73 e segue para os eventos onde sempre é alvo de atenção de todos pelo valor histórico da sua presença.  Começa, então, a me contar como entrou para o exército.

“Em 1942, eu fui para Pouso Alegre [sede do exército no Sul de Minas] como voluntário. Depois de seis meses em Pouso Alegre, e como estavam torpedeando os nossos navios, o Brasil queria arranjar as tropas para tomar conta do litoral do país, no Pernambuco e na Paraíba. Ainda não se falava do Brasil entrar na Guerra, não! Caso tivesse uma invasão, a gente ia defender. Então, a gente foi para o Rio de Janeiro. Éramos umas 60 pessoas. A gente acampou num posto de triagem. O que tinha direito a levar era uma esteira, um saco com uma roupa, um cantil para levar água e uma marmita que tinha lá, de ferro. Na hora do almoço você pegava sua marmita e depois você mesmo lavava. Mais tarde fomos para um quartel, em Búzios. Já havia uns quatrocentos, seiscentos soldados. E nos disseram que agora iríamos para o Norte [no começo do século XX era comum chamar o Nordeste de Norte]. A gente iria guarnecer o Norte. Mandaram a gente ir para o porto. Levamos umas esteiras, porque não tinha cama, não tinha nada. Embarcamos e ficamos no navio uns dez dias. Disseram: ‘quem sabe nadar, tudo bem, quem não sabe, vai cair na água’ Aí jogava nego dentro d’água e tinha que aprender no susto, porque o navio pode ser torpedeado e tinha que aprender. Dia 10, mais ou menos, iam sair cinco navios para guarnecer o Norte. Antes disso, quando o navio chegava na Bahia, era torpedeado. Eles [alemães, supostamente] começaram a torpedear os navios brasileiros que passavam por lá”. Seu Gonçalo faz uma pausa, como se rememorasse os eventos na cabeça. Pouco depois, retoma a fala:

“Na manhã desse dia, de manhã, iriam sair seis navios. Mas houve uma confusão, disseram que o Afonso Pena não iria sair, e esse era o navio que eu estava. Saíram então esses cinco navios”. Enquanto seu Gonçalo conta sobre a sorte inesperada de ter seu navio, Afonso Pena, barrado na saída do Rio, ele me mostra um papel batido à máquina com o texto:

Após o afundamento nas costas brasileiras dos navios Aníbal Benévolo, Baependi, Araraquara, Itagiba e Araras, em agosto de 1942, com 653 vítimas, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Eixo. Assim acontecendo, os bravos soldados brasileiros se deslocaram dos vários Estados, atendendo o chamado da Pátria, para a vigilância do litoral.

Depois de recolher o papel e cuidadosamente guardar na pasta, ele continua o relato:

“Por sorte, o nosso navio ficou no Rio e a gente não foi torpedeado. Com o tempo, no Rio, o pessoal nas ruas pedia: ‘Queremos Guerra!’. As tropas brasileiras que foram lá, morreram. Isso começou a meia noite e foi até a madrugada. Fizeram uma confusão no Rio de Janeiro ‘queremos guerra, queremos guerra’. Invadiram as coisas dos alemães [ele não se explicou aqui, mas provavelmente foram invadidas lojas, estabelecimentos de alemães ou descendentes no Rio. Outra hipótese, a própria embaixada alemã]. Fizeram miséria. Aí o Getúlio falou: ‘É mais fácil uma cobra fuma do que o Brasil entrar em Guerra’. Sabe o emblema da FEB, a cobra fumando, e ele disse isso. O resultado foi que, por fim, declarou Guerra ao eixo”. Nesse momento, seu Gonçalo me mostra fotos do Afonso Pena saindo do Rio de Janeiro, e continua sua narrativa:

 “Aí nosso navio saiu e saiu comboiado já. A gente foi guarnecer o Norte. Foram mais cinco navios. Quando foi pro Norte, a gente comboiado, não foi nada torpedeado. Lá, a gente ficou na praia, guarnecendo o litoral, com metralhadoras, em cima de prédios. Fizemos treinamentos com caminhão antiaéreo. Esse daqui é o Minas Geraes [grafia da época]” ele apontava um foto do couraçado de guerra. “Era daqueles antigos, a gente já tinha antes da guerra, naviozão de guerra.” Seu Gonçalo me mostrava fotos da viagem do Rio ao Nordeste. “Tinha ainda um destróier, tinha um rebocado. A gente foi em seis navios, todos protegidos. Olha eles aqui.” Mais algumas fotos do comboio que levou os expedicionários ao Pernambuco. “Quando a gente chegou a Recife, no tempo de guerra, o pessoal ficou todo louco. ‘O Brasil vai entrar em Guerra!’. E a gente ainda fez exercício com a máscara de gás. Eles diziam que se jogassem gás, a gente tinha que pôr a máscara. A gente tinha que estar preparado. Fazia treinamento em trincheira, como pôr canhão dentro, era um buracão feito com picareta. A gente ficou quase um ano lá no Norte”.

Com a foto de uma artilharia na praia do Recife, seu Gonçalo relembra as funções que desempenhava naquele tempo, “Esse canhão grande, quando o general grita ‘fogo’, eu que puxava o gatilho do canhão. Eu era artilheiro dois. Tinham oito canhões e eram cinco quilômetros de distância que ele dava o tiro. Os comandantes tem um ponto estratégico e com os mapas ficavam gritando ‘alça a mira’ para ir pro lados que eles querem e daí eles olham onde caiu o tiro e modificam também a mira, viram o canhão, mais alto, mais baixo, até cair em cima de onde querem. Depois que acerta o ponto e o adversário está naquela zona, aí começam os tiroteios de canhão. A base é essa. A organização era perfeita”.

“A comida, olha como era, era em caldeirão” me disse mostrando a foto do acampamento improvisado na praia. Depois que a gente tinha chegado ao Norte, tinha muita gente rica, filhinho de papai. Falaram com o autocomando e fizeram o Afonso Pena voltar. Mas chegando à Bahia o navio foi torpedeado e morreu todo mundo. Não tinha comboio, voltou sozinho, foi torpedeado”.

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Participação dos pracinhas brasileiros na Itália durante a Segunda Guerra Mundial (Foto: reprodução/anvfeb.com.br)

Passando as fotos do colo para a mesinha de centro, Seu Gonçalo começa a lembrar de quando os pracinhas começaram a seguir para a Europa, quando a guerra realmente começou pra ele e seus companheiros:

“Lá [em Recife] não tinha quartel, não tinha nada, então fizeram essas barracas com coqueiro, a gente dormia lá. Não tinha parede, era só coberta. A gente ficou lá enquanto aguardava embarque para a Itália. Já tinha ido o primeiro escalão para a Europa. Só pessoal de primeira mesmo, se no exame desse qualquer coisinha, tipo dentadura, não ia nesse escalão. Analfabeto também não ia não, no primeiro escalão. Já no segundo escalão, pegavam o pessoal todo. Chegava lá na Europa e tinha acampamento para todo mundo. Aí terceiro, quarto, quinto escalão. Eu fui com o último escalão. Quando eu tava lá em Recife, eles disseram ‘quem quiser ir para a Força Expedicionária, se apresente’ e eu disse ‘eu quero’. Aí me apresentei voluntário em João Pessoa, na Paraíba. E lá o mar era todo dos americanos, os comboios americanos, tudo quanto é coisa americana era lá. E em Recife, as quadrilhas de aviação. Abasteciam em Pernambuco e saiam pra fazer o bombardeio. Os navios de guerra estavam ancorados, era dali que eles saiam também. Aí eu apresentei voluntário. Chegamos a João Pessoa, num quartel. A gente tava nesse grupo e ficamos lá dois meses parado. Chegou um capitão e disse ‘sob meu comando, agora vamos para o Rio de Janeiro, para a FEB’. O Brasil já estava em guerra”. Seu Gonçalo diz que precisa de um copo de água, se levanta e eu vou atrás. Ele me oferece um copo também. Na cozinha ele continua: “Eles diziam que a noite a gente não podia acender luz, cigarro, nada no navio, senão ele era torpedeado. ‘Só durante o dia vocês podem fumar’. O lixo também, a gente jogava de dia. Eles diziam que se o navio fosse torpedeado, a gente tinha que pular nas balsas e sair. Porque na hora que o navio fosse afundar ele ia puxar todo mundo junto. Tinha boia salva-vidas também, só que a gente não podia mexer muito na água, se não peixe pega. Então, os brasileiros chegaram à Europa. Não sabiam falar inglês, nem nada. Chegou lá, um frio, os americanos deram roupa pro pessoal, eles tão acostumados lá. O Brasil começou a fazer uns combates, e se deram bem, porque o brasileiro é gente heroica mesmo. Outra turma foi para Montese [região na península de Modena, na Itália], onde eu fui em 1945, quando a gente chegou, já tava no fim da guerra”.

Voltando à sala, ele procura alguma coisa nas memórias, pega um jornal de veteranos da FEB e me diz: “Olha o quê o Brasil fez lá na Itália”. Seu Gonçalo me entrega o jornal, apontando uma matéria com os números do Brasil na Guerra: 25.334 efetivos, 465 mortos, 2.722 feridos, 23 desaparecidos, 35 prisioneiros. A FEB tinha na Itália dois generais, 892 oficiais, 19.689 praças, 80 canhões, 5.000 viaturas e 4.000 cavalos capturados dos inimigos. Enquanto eu folheio o jornal, ele continua seu relato: “Onde morreu mais foi em Monte Castelo [monte a sudeste de Bolonha, na Itália]. Eu fui a Montese, mas em Monte Castelo eles entraram em combate, foram avançando, quando chegaram lá, uma outra turma dos alemães entrou por trás e pegou em emboscada. Parece que era o comandante Mascarenhas de Moraes”.

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Participação dos pracinhas brasileiros na Itália durante a Segunda Guerra Mundial (Foto: Reprodução/anvfeb.com.br)

Seu Gonçalo guarda o jornal que devolvi a ele em meio as fotos e papéis na mesinha. Ele então começa a tocar numa polêmica sobre os navios abatidos na costa baiana, “Quem você acha que podia ter torpedeado os navios brasileiros? A Alemanha não tinha nada com o Brasil, tinha? Agora era torpedeamento de navio. Chegava lá e torpedeava navio, nós estávamos guarnecendo o Norte da invasão. Mas os torpedeamentos eram na Bahia, engraçado, era só na região da Bahia. Navio passava lá era torpedeado, quem estava lá? Era americano”. Essa teoria não é coisa da cabeça do seu Gonçalo, muitos historiadores e estudiosos da guerra consideram essa possibilidade, uma maneira dos americanos forçarem Vargas a romper com os alemães, antes que o Brasil entrasse no outro lado da guerra. Seu Gonçalo começa, então, uma reflexão sobre a guerra:

“O alemão se preparou, já pegava em arma desde dezesseis anos, tinham o melhor exército. Um tempo antes, a Polônia e a Checoslováquia tomaram uma parte dos alemães. Depois o Hitler se preparou e esperou até o momento certo. O primeiro lugar que eles entraram foi a Polônia. Arrasou eles. Arrasou a Checoslováquia, depois foi na França. A França que era um país de guerra, mas o Hitler tava preparado, foram lá tomaram a França. Resultado, chegou num ponto em que eles quiseram invadir a Rússia, mas o frio lá congelou eles e perderam mais da metade do exército deles. Os russos chegaram dentro de Berlim, foi aí que terminou a guerra. Se eles não invadem a Rússia, eles não perdiam. Povo russo não conhecia nada do mundo, só vivia lá e não aceitava que ninguém fosse lá, naquele tempo. Acabaram com Berlim, bombardeio e tudo. Depois dividiram lá, fizeram o muro da vergonha, uma parte deles, outra dos americanos. Eles aproveitaram tudo, o alemão tava perfeito, se prepararam, e depois os russos e americanos pegaram tudo deles, os cientistas, tudo”.

Enquanto seu Gonçalo guardava as tantas fotos, comecei a olhar as homenagens que ele recebeu ao longo da vida e que exibe com orgulho na sala de casa. Alguns troféus de ex-combatente do exército, honras ao mérito entregues pela maçonaria, pelo Tiro de Guerra de Poços de Caldas e muitos outros. Mas o que mais me chamou atenção foi uma pequena réplica da Arca da Aliança, idêntica à do filme Os Caçadores da Arca Perdida. Perguntei a ele o que significava e ele me disse que é um presente especial para pessoas honradas que ele recebeu da igreja Adventista, uma réplica da Arca da Aliança, onde eles acreditam que repousam as tábuas dos dez mandamentos que Deus deu a Moisés. Ele me acompanha até a saída, na porta do frigorífico. Vejo nos olhos de seu Gonçalo toda a emoção que vem a mente quando ele fala das memórias da guerra. Mais de setenta anos depois do fim da guerra, ele ainda sente as marcas de ter vivenciado toda aquela tragédia. Seu Gonçalo é um homem forte.

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