Grafite e grapixo, cores e valores

Arte urbana nos muros da cidade, expressão e contestação

Por Lucas Mendes

A arte urbana é um elemento presente nas ruas há um bom tempo, e isso não se restringe somente às grandes cidades. Com ela o espaço público se transforma em suporte para o desenvolvimento da arte e, na sua esteira, todo o potencial de comunicação e expressão.

Como parte da arte urbana, o grafite se desenvolveu nos EUA, nos bairros do Bronx e Brooklyn da cidade de Nova York, feito por jovens negros e latino-americanos.

Ele supria a necessidade desses grupos se manifestarem e se expressarem artisticamente, uma espécie de “grito das ruas” dos jovens que viviam nos guetos e marginalizados pela cultura hegemônica do seu tempo.

O movimento ganhou força com a contracultura da época e buscava romper com os ideais da sociedade norte-americana, ao mesmo tempo em que ia na contramão da cultura de massa.

Aqui no Brasil, o grafite tem repercussão já a partir dos anos 70. Para Sérgio Oliveira, artista e professor de artes da Pinacoteca Municipal de Bauru, o grande precursor da arte no país foi Alex Vallauri. “Tanto é que dia 27 de março é comemorado o dia nacional do grafite pelo fato da morte dele”, explica Sérgio.

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Arte do graffiti transcendeu as ruas e hoje é também artigo de exposição. Na foto, arte exposta na Estação Ferroviária de Bauru. (Foto: Lucas Mendes)

A cena do grafite no início tinha bastante influência do punk rock e ganha ressonância no Brasil nos anos 80 e 90, a partir do trabalho de artistas como OSGEMEOS, Espeto, Vitche, ISE, Nina e muitos outros, que acabariam por influenciar toda a arte do grafite para as próximas gerações.

A essência das ruas

Com o desenvolvimento da arte, a sociedade foi passando a olhar o grafite de outra forma. Hoje em dia, por exemplo, muitos dos artistas do grafite expõem em galerias. Apesar disso, a essência continua. “O suporte, a tela, são as ruas, essa é a essência do público de se manifestar nas cidades”, conta Sérgio.

Por estar nas ruas, o grafite é uma arte gratuita. “O que é legal também é o interesse de levar a arte e levantar esses questionamentos. Porque um muro branco é como um povo mudo”, diz o artista.

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Liberdade de expressão, de criação e de contestação. Grafite da Casa do Hip Hop de Bauru. (Foto: Lucas Mendes)

“A arte de modo geral e a arte urbana mais ainda tem a obrigação de fazer a pessoa pensar, sair da rotina dela, da zona de conforto, pôr a cabeça pra funcionar e fazer questionar”. É o que diz João Crepaldi Nellis, o Jota Crepaldi, artista do grafite.

Apesar da grande relevância dada à arte em outros lugares dentro e fora do Brasil, em Bauru ainda parece ser difícil para o artista se manter apenas com sua arte. “Aqui [em Bauru] é pintar por prazer mesmo, mas quando contratam a gente tem que agarrar”, revela Jota.

Arte pela Arte?

Muitos pichadores e grafiteiros acabam fazendo pinturas comerciais, como letreiros de lojas e estabelecimentos, para complementarem a renda ou ao menos bancar a compra de novas latas de spray.

“Eu faço várias vertentes do grafite, até parti pra fazer letreiro e logotipo de loja”, diz Diego Rodrigo, grafiteiro e pichador em Bauru, um dos tantos que começaram com a pichação e se tornaram artistas do grafite.

Jota Crepaldi acredita que falta cultura em Bauru para que a arte urbana possa ser melhor reconhecida. “Tem que acostumar a cabeça das pessoas de que grafite não é crime”, diz.

Já para Sérgio Oliveira, a pintura comercial é a sobrevivência da rua. “Como que consegue tinta? Grafiteiro não tem dinheiro. Então a pintura comercial ajuda na manutenção do trabalho na rua. Eu faço um trabalho comercial, sobrevivo dele e tenho dinheiro pra comprar minha tinta, ou até pra comer”, explica ele.

Grafite ou pichação?

Diego é sincero quando fala sobre a arte que faz. Quando se compara grafite com pichação, ele não hesita. “Não vejo muita diferença não”.

A diferenciação entre os dois termos é mais conceitual do que prática, uma vez que existem pichadores que fazem grafite e grafiteiros que fazem pichação. Uma coisa tem tudo a ver com a outra.

Pichações são caligrafias urbanas, inventadas na capital São Paulo e que tem uma influência inicial com o movimento punk, o que é bastante confundido com as letras do grafite. Essas são as modalidades, que podem ser das mais diferentes técnicas, como Bomb, Piece, Wildstyle, Freestyle, Throw-up dentre muitas outras.

“Qual a diferença entre grafite e pichação? Também não sei”, diz Jota. “Surgiu como uma coisa só. Quem que falou ‘agora vai ser separado, grafite é isso e pichação é isso’?. O que define se é grafite ou pichação?”, questiona ele.

“A pichação tem tudo a ver com grafite. Os primeiros grafiteiros de São Paulo se envolveram com a pichação, que começou a se espalhar e criar uma caligrafia urbana própria”, pontua Sérgio.

A polêmica da Lei

Proposta pelo vereador Raul Aparecido Gonçalves (PV) e instituída em novembro de 2014, a Lei nº 6.606 gera controvérsias entre os envolvidos com o grafite e a pichação e as autoridades municipais.

A Lei dispõe sobre o Programa de Prevenção e Punição a Atos de Pichação, tanto nos bens públicos como nos de terceiros. Entre os pontos polêmicos, proibir venda de tintas e solventes para menores de 18 anos e a criação de um “Disque Pichação” para denúncias.

“O vereador criou uma lei inócua, que não serve pra nada, porque já existe uma lei federal, ou seja, ele criou uma lei pra ganhar voto da Zona Sul de Bauru”, desabafa um inconformado Jota Crepaldi.

O vereador Dr. Raul Gonçalves é médico oftalmologista. Segundo ele, a criação da lei teve por base uma lei federal sobre o tema, de 2012. “O que a nossa lei quer fazer é [com relação] à maneira que as pessoas querem se manifestar através da pichação. Uma linguagem que só interessa a um grupo minoritário, pouco inteligível. A maior parte da população não concorda com isso (…) a cidade fica totalmente emporcalhada”, declara o vereador.

Em defesa de sua proposta, Dr. Raul lembra que no país o grafite já é descriminalizado e, segundo ele, o crime é apenas para a pichação. Para o vereador, hoje em dia existem novas formas de expressão, o que tornaria a pichação algo desnecessário. “Hoje nós temos as mídias sociais, que você pode fazer a manifestação da forma que você quiser e atingindo um público muito maior”, conclui.

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Pichações à frente e o grapixo ao fundo, arte na nova Pista de Skate de Bauru. (Foto: Heitor Facini)

Para Sérgio Oliveira, as coisas vão além. Ele enxerga uma relação de “primo rico e primo pobre” entre o grafite e a pichação. “Hoje já se criou uma nova modalidade. Aqui no Brasil as coisas se criam, porque a gente tem a imaginação muito fértil. Surgiu o ‘Grapixo’, que só existe aqui, no mundo todo”.

O grapixo seria a fusão entre o grafite e a pichação, uma forma híbrida que une pontos característicos das duas linguagens numa figura só. “É uma letra de pichação gorda, estilizada. Aí ele pode fazer ‘firula’, criar uma estética própria da letra, fazer escorrendo, coisas da linguagem própria do grafite”, ensina Sérgio.

Para ele, o grapixo é uma coisa “muito original brasileira”. “Eu acho que é muito legal porque o movimento não ficou parado só na pichação. Aí você vê que os pichadores querem fazer grafite também e inventaram o grapixo”, conclui.

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