Tragédia ambiental a preço de banana

Samarco paga multa de menos de 3% de seu faturamento anual

Por Elisa Espósito

Drama invisível nas cidades mineiras (Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres)

Drama invisível nas cidades mineiras (Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres)

Um tsunami de lava invade Mariana e Bento Rodrigues, cidades que comportavam as barragens de Fundão e Santarém, no dia 5 de novembro. 19 pessoas foram mortas e milhares de pessoas perderam qualquer perspectiva de vida.

O crime ambiental – denominado por muitos como acidente – da mineradora Samarco/Vale/BHP, desmascara a lógica paradoxal neoliberal: o lucro é privatizado e os prejuízos são socializados. O Estado é mínimo para investimentos em educação, saúde, moradia, mas deixa de ser para socorrer bancos e instituições financeiras ou amenizar os danos gerados por empresas.

“A Samarco despejou toda a tabela periódica em Mariana e no vale do Rio Doce e é o exército que está distribuindo água para a população em Governador Valadares, isto é, o Estado amenizando as consequências da ação criminosa da empresa. Prefeituras estão gastando dinheiro público para minimizar estragos e recuperar áreas devastadas”, lamenta o historiador Carlos Eduardo de Castro.

Enquanto os danos ambientais deixados pela mineradora são imensuráveis, a Samarco recebeu multa de R$ 250 milhões, para uma empresa que faturou R$ 7,6 bilhões em 2014 e apresentou um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões.

“O metal pesado não vai te fazer cair duro no dia seguinte. Não existe isso. Vai ser filtrado no seu rim, mandado para todo o organismo e com o passar dos anos vai apodrecendo seus órgãos. Você vai perder 10, 15, 20 anos de vida. Ele vai matando a pessoa aos poucos”, revela o doutor em saúde pública, químico e ambientalista Rogério Machado.

Pesquisadora segura amostras coletadas do Rio Doce na cidade de Naque (MG) (Foto: Todd/Greenpeace)

Pesquisadora segura amostras coletadas do Rio Doce na cidade de Naque (MG) (Foto: Todd/Greenpeace)

O último Relatório de Segurança de Barragens data de 2014, estudo anual feito pela ANA (Agência Nacional de Águas), diz que apenas 165 barragens ( o equivalente a 15%) possuem o Plano de Ação de Emergência, entre 1.129 das consideradas de risco.

Conforme a Folha de São Paulo mostrou em novembro, o plano de emergência da barragem Fundão não previa nenhuma estratégia para alertar diretamente os moradores de Bento Rodrigues.

O documento dizia que “a responsabilidade por avisar e remover as pessoas em risco iminente é da Defesa Civil”. Isso contraria a portaria de 2013 do DNPM, que diz que “cabe ao empreendedor alertar a população potencialmente afetada”.

No dia 12 de janeiro a empresa entregou o estudo de simulação de rompimento das barragens de Germano e Santarém, conforme a Justiça havia determinado, ainda que com um dia de atraso. O estudo foi considerado incompleto pelo Ministério Público por não especificar que medidas adotariam caso uma nova barragem fosse rompida.

O governo federal vai fiscalizar, uma a uma, as 220 barragens de rejeitos das mineradoras. O trabalho deverá ser concluído até abril. “É lamentável que esse tipo de tragédia tenha que acontecer para ‘servir de exemplo’. Só assim, para as autoridades competentes passarem a fiscalizar corretamente as barragens que colocam em risco a vida de muitos”, afirma Rogério Machado.

 

 

 

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