O machismo nosso de cada dia

O que podemos tirar dos ataques na Alemanha

Por Maria Victoria Pera Mazza

O caso

Na noite de ano novo, cerca de noventa casos de assédio sexual – incluindo um estupro – foram registrados em Colônia, Alemanha. De acordo com a polícia local na época dos acontecimentos, uma média de mil homens se reuniram na estação central da cidade e passaram a perturbar as mulheres ali presentes. Ainda segundo eles, os relatos eram de que os homens eram de aparência árabe e norte-­africana.

“Com o aumento da mobilidade humana, é possível que haja um aumento do número de casos de agressões sexuais”, explica Elaini da Silva, pesquisadora do NDD/Cebrap e professora da Fecap e da PUC­SP, que não acredita que os casos da Alemanha sejam isolados, visto que houve relatos em Estocolmo e na Suécia.

Abordagem da mídia

Logo após o acontecimento, os veículos de imprensa correram noticiar o que aconteceu em um país julgado tão avançado nas questões do machismo. Porém, o questionamento mais crescente que fica é da grande repercussão em casos como esse, mas praticamente um esquecimento dos casos de violência, assédio e abuso que acontecem todos os dias pelo mundo.

Ainda de acordo com Elaini, isso acontece porque é fácil noticiar aquilo que é cometido por alguém que julga ser distante daquele que escreve. “O que não costuma ser noticiada é a agressão cometida pelos homens que fazem parte de uma mesma sociedade, entre os quais há um vínculo de solidariedade”, explica a profissional.

Elaini finaliza a questão: “As agressões de gênero são baseadas no pertencimento dos envolvidos a grupos predeterminados: a mulher que é vítima de estupro ou assédio sexual não é vítima apenas porque é ela, mas porque faz parte do grupo mulher”.

Preconceito

A mídia, neste caso, também desperta um papel importante na questão do preconceito e xenofobia. Afinal, o discurso utilizado ajuda a manipular a opinião pública perante imigrantes – já que os agressores foram reconhecidos como árabes e norte-­africanos. Mas Elaini fala que houve uma divulgação de dados não conferidos com responsabilidade, o que ajuda no recebimento hostil de estrangeiros. “Em outras palavras, a manipulação da informação pode levar não apenas ao aumento do preconceito desse grupo, como também à penalização das próprias mulheres”.

Por que se bate na tecla do machismo?

Mesmo com tantas discussões e o avanço das ideias feministas, ainda nos deparamos com incontáveis casos de machismo no mundo inteiro. E tudo porque ninguém consegue reconhecer o seu papel de opressor ou agressor, só acredita e repudia a prática do outro.

Mas ainda é possível enxergar um pouco de esperança a longo prazo: “as mulheres estão aprendendo que têm direitos, mas mais do que isso, que elas são sujeitos e merecem respeito. A autocompreensão como um sujeito que merece ter sua voz ouvida e ser respeitada é a base para todas as demais modificações, porque direitos nunca são cedidos, são sempre conquistados”, finaliza Elaini.

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