Que horas ela volta?

O filme brasileiro que conta história de empregada mostra a realidade que a sociedade não vê – ou que simplesmente ignora.

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Foto: reprodução

Por: Marcos Cardinalli e Thais Daniel

  • Abril de 2013. Jornada de até 44 horas semanais. Horas-extras. Controle de ponto. Proibição da contratação de menores de 18 anos.
  • Junho de 2015. Possibilidade de intervalo para almoço de 30 minutos. Adicional Noturno. Banco de horas. Adicional de viagem. Férias fracionadas (em dois). Contrato por prazo determinado. Jornada 12×36.
  • Outubro de 2015. FGTS passa a ser obrigatório. Seguro sobre acidente de trabalho. Salário Família. Seguro desemprego.
  • Fevereiro de 2016. Para o Governo, as domésticas estão com seus direitos conquistados. As leis mudaram a cultura e agora sim elas conseguiram seu espaço na sociedade.

Para quem não vive a realidade das empregadas domésticas e lê as notícias informativas sobre a PEC das Domésticas, nome popular para a proposta de Emenda à Constituição que prevê novos direitos trabalhistas para a categoria, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em 2015, acredita que a justiça foi feita, a legislação concluída e que agora todas as empregadas domésticas estão felizes e com seus direitos garantidos.

Entretanto, não é o que pensa João, filho de Inês, doméstica há mais de 40 anos: “Na realidade, não foi conquistado quase nada! Foi promulgada recentemente a Lei das Domésticas. Mas ela é básica demais e não há instrução efetiva para essas profissionais, que muitas vezes não tem a educação básica completa. Não adianta apresentar a lei pra elas, pois muitas vezes, podem não compreender os termos jurídicos e continuarão sendo exploradas pelos patrões. Minha mãe, por exemplo, sabe que existe a lei, mas ela não sabe explicar quase nada o que a mesma significa. A única coisa que tem certeza é que foi demitida por causa da lei, já que seus patrões alegaram que não possuem dinheiro para pagar o que o governo exige, apesar de estarem sempre viajando ao exterior. A culpa cai novamente em cima das minorias”.

No papel, burocraticamente falando, está tudo lindo. Mas e na realidade do dia a dia? O que as domésticas mais querem é conquistar o direito de fala e o respeito. “O problema ainda é muito mais social, como o filme mostra. É a questão de como os patrões enxergam e tratam as domésticas, e até mesmo como elas se vêem. É como se existisse um sistema de castas, como se elas fossem inferiores. A legislação precisa caminhar muito ainda, mas a principal questão a ser resolvida é a sensibilidade e conscientização social, o empoderamento das empregadas domésticas, para que elas se vejam como pessoas dignas e saibam exigir os seus direitos”, conclui João.

 O filme brasileiro “Que horas ela volta” conta a história de Val, uma empregada doméstica que deixou sua filha aos cuidados de familiares para que pudesse se mudar para a capital paulista, a fim de trabalhar como doméstica para sustentar sua filha. Anos depois, sua filha vai prestar vestibular em São Paulo e decide morar temporariamente com sua mãe, na casa dos patrões. Com um pensamento mais crítico que o da mãe, Jéssica não segue os protocolos e confronta o modelo social ali imposto, representando muitos jovens que buscam oportunidades de se afirmarem na sociedade. Em dezembro de 2015, o longa foi eleito como um dos cinco melhores filmes estrangeiros do ano, pela organização norte-americana National Board of Review, e como o melhor filme do ano pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine).

A mãe de João, Inês, cujo sobrenome não se faz necessário por não ser considerada, por muitos, como uma pessoa relevante, é empregada doméstica há anos e diz que gosta muito de sua profissão, principalmente quando é tratada com respeito, pois faz o seu serviço com amor. Mas conta também que já sofreu com patrões abusivos: “Já tive patroa que abusava da minha boa vontade, fazia coisas que não tinha nada a ver com serviço de empregada. Mas chegou num limite que não dava mais, disse tudo que tinha que dizer e a larguei na mão”.

A PEC das Domésticas entrou em vigor em junho de 2015 do século XXI. Na Folha, em outubro de 2015, lê-se na matéria “Não aprendi muito com ‘Que Horas Ela Volta?’, diz representante de patrões”, aquela frase, dita por Margareth Carbinato (presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo), e que já estamos fartos de ouvir: “Está faltando no ser humano cada um saber o seu lugar”. Afinal, como a própria presidente do Sindicato – e representante formal da categoria e que luta pelos direitos da mesma- completa, toda essa repercussão desnecessária é falta de profissionalismo das empregadas domésticas.

A representante das domésticas não trabalha na área, pois é uma advogada. Para ela, de acordo com a mesma matéria da Folha, o respeito precisa fazer parte do dia a dia das pessoas, e o que “está faltando no ser humano é cada um saber o seu lugar”.

O pensamento de Margareth, de que as empregadas devem se manter no seu devido lugar, não é incomum na sociedade brasileira. Na rede social Twitter, o perfil @aminhaempregada vem compartilhando as manifestações públicas das pessoas que utilizam a rede fazem sobre suas empregadas domésticas. É possível ler frases como as das imagens abaixo.

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Algo que foge à compreensão dos patrões é a possibilidade de ascensão social das domésticas e de seus filhos, através de programas sociais e de inclusão. Foge à compreensão pois parece que as domésticas estão realmente conquistando o seu lugar de direito, como pessoas dignas e cidadãs igual a qualquer outra pessoa, com direitos iguais. Foi sugestão, inclusive, daquela tal presidente do Sindicato, de que cada um deve se colocar no seu lugar. Entretanto, o lugar que os patrões, e talvez da presidente do Sindicato, acreditam ser das empregadas, é na cozinha, na área de serviço e, para alguns – pra não falar muitos – na senzala.

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Imagem retirada da página do Facebook “Memes Messiânicos”

O filme “Que horas ela volta” retrata essa realidade de ascensão social quando a filha da personagem Val, mãe solteira e pobre, consegue uma vaga em uma das universidades mais concorridas, apesar de desacreditada pelos patrões da mãe. A frase dita pela patroa de Val representa muito bem a incompreensão de alguns: “O mundo está mudando mesmo”. E nas redes sociais, o descontentamento da elite continua, como pode ser lido nesta postagem encontrada no Facebook:

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E não é só nas universidades que as domésticas, os pobres e os negros vêm ganhando espaço. Na própria rede social onde os patrões desabafam seus descontentamentos e infelicidades com suas empregadas, as mesmas também estão presentes. E isso assusta quem antes estava acostumado com uma internet elitizada. No fim de 2015, foi lançada, no Twitter, a campanha #MinhaPatroaSecreta, em que as domésticas resolveram também publicar seus pensamentos, tornando público o que costumam passar no seu dia a dia:

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“Que horas ela volta?” retrata muito bem a atual realidade. O serviço de empregada doméstica é muitas vezes tido como uma escravidão do século XXI. A repercussão do filme ajudou muitas pessoas a abrirem os olhos e a refletirem sobre este trabalho que é somente mais uma profissão entre tantas outras e que deve ser tratada com o mesmo respeito. Porém, ainda falta muito o que transformar. A PEC e o filme são bons começos. Entretanto, a realidade só mudará quando toda a população entender que ser empregada doméstica é uma profissão. E como para toda profissão, o trabalhador merece respeito, dignidade e direitos.

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