O legado de Agostinho

Ao final do segundo mandato como prefeito de Bauru, a observação da cidade sob administração Rodrigo Agostinho, na perspectiva do governante

Por Lucas Mendes

*Veja aqui a íntegra da entrevista

Desde 2009 à frente da Prefeitura de Bauru, Rodrigo Agostinho (PMDB) conseguiu sua reeleição com uma marca de 82% dos votos na cidade – batizado pela imprensa na época como um “tsunami eleitoral”. Agora, ao final de seu último ano como prefeito, o contexto é bem diverso e nem Bauru nem o Brasil são os mesmos de 8 anos atrás. A seguir, Rodrigo explica e faz um balanço de alguns pontos importantes de sua atuação na cidade.

Rodrigo, você foi reeleito em 2012 com uma grande margem de votos. Como avalia esse apoio recebido e como isso contribuiu para seu mandato como prefeito?

Muito provavelmente isso não tenha ajudado em nada na administração do segundo mandato. É claro que uma votação dessa cria uma expectativa muito grande, cria um senso de responsabilidade maior ainda, mas não ajudou, porque politicamente eu passei a enfrentar uma oposição maior por parte da Câmara e de meus adversários políticos. Do ponto de vista de dizer que a minha votação teria me ajudado no segundo mandato, longe disso, na verdade atrapalhou bastante.

Nesses 8 anos o caixa da prefeitura passou por vários momentos. Em qual estado o(a) próximo(a) prefeito(a) vai assumir?

A situação financeira da prefeitura está boa, está estável. É evidente que por conta da crise financeira a gente perdeu muita arrecadação, mas ao mesmo tempo eu tive a responsabilidade de cortar as despesas e os investimentos que eu iria fazer este ano. Então, este ano não estou fazendo obras com recursos próprios, apenas com recursos de convênios e repasses do governo do Estado e Governo Federal. O próximo prefeito vai pegar a Prefeitura em ordem, as finanças todas em dia, com um pouquinho de dinheiro em caixa, mas as finanças estão bem.

Audiência pública, na Câmara, sobre Aterro Sanitário

Prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) enfrenta um segundo mandato mais turbulento que  o primeiro, com dificuldades de ordem financeira e forte oposição no legislativo municipal. Foto: João Rosan/Jornal da Cidade

Como é sua relação com o Sindicato dos Servidores (Sinserm)? Como manter o discurso da crise sendo que o salário dos servidores não acompanha o reajuste da inflação?

Diferentemente do que possa parecer, minha relação com o Sindicato sempre foi muito boa. Temos dialogado bastante, mas eu entendo que o Sindicato tem toda a razão em continuar reivindicando, continuar cobrando. É um direito do servidor a reposição, mas por um outro lado não tem dinheiro, então, também não consigo fazer mágica, se não tem dinheiro não tem o que fazer.

Nós mantivemos o mês de março inteiro pra negociações, e a proposta original que era de 2,5% acabou ampliando pra 7%, mas muitos cortes acontecerão, e alguns cortes inclusive na área dos servidores, pra gente poder pagar esse valor que estamos dando de reajuste. Mas os servidores têm razão, a prefeitura que simplesmente não tem dinheiro por conta da queda na arrecadação.

Muita gente reclama, não sem razão, dos inúmeros buracos na cidade. O que pode ser feito quanto a isso?

A única coisa a ser feita é tapar os buracos. Tivemos fevereiro inteiro de chuvas, dos 29 dias do mês choveu 21. E o mês de março inteiro os funcionários estavam parados em greve, então agora dentro do mês de abril estaremos trabalhando pra tapar os buracos. Não tem muita mágica nisso. Na verdade, os 7 caminhões da prefeitura e do DAE que tapam os buracos estão trabalhando, uma boa parte dos buracos foram tapados, mas falta bastante coisa.

Sobre o ‘PAC da Pavimentação’, nos bairros periféricos como o Santa Cândida, Tangarás, pra essas obras já foi dada a ordem de serviço. Como está o andamento nessas quadras?

Essas quadras foram ficando até que conseguimos viabilizar um recurso do Governo Federal, do convênio “PAC Pavimentação”. Dentro desse programa vão ser feitas 700 quadras de asfalto e quase 50km de galerias de águas pluviais, o que é mais caro dentro desse projeto – é um investimento de 45 e que pode passar de 50 milhões de reais, e já foram dadas as ordens de serviço. Dois bairros grandes já começaram as obras, que é o caso do Tangarás e do Pq. Santa Cândida, e nós temos a expectativa de começar as obras em outros 10 bairros da cidade.

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Instalação de galerias pluviais no Santa Cândida, para receber pavimentação. Foto: Divulgação.

Na recente crise do abastecimento de água, o rio Batalha passou por péssimos momentos de seca. Não faltou, por parte da Prefeitura, um planejamento a fim de se evitar o desabastecimento e os racionamentos de água?

Não faltou e eu digo isso com muita tranquilidade. (…) O que acontece é que a captação de água do rio Batalha não está na foz do rio, e sim na nascente, então não tem um litro de água a mais pra ser tirado do rio. A prefeitura tira mais água do que tem disponível no rio pra ser extraído.

O que a gente precisava era ter uma segunda captação de água, pra tirar água muito mais abaixo do ponto de onde é retirada essa água hoje. Pra isso seria necessário um investimento de mais de 100 milhões de reais, e nem DAE nem a Prefeitura têm esse dinheiro.

Sobre a implementação do Plano Diretor do Município, recentemente foi encaminhada à Câmara a proposta da Lei de Zoneamento. O que isso muda pra cidade e o que traz de incentivo?

A Lei de Zoneamento é um negócio muito bacana. Atualmente, Bauru trabalha com a Lei de Zoneamento de 1982, e ela durou todos esses anos. A nova Lei de Zoneamento trabalha muito com critérios de sustentabilidade(…). Essa Lei cria uma série de critérios, estabelece contrapartidas por parte dos investidores. Tenta restringir ao máximo os loteamentos fechados – nos últimos 20 anos não saiu nenhum loteamento aberto em Bauru. Então é uma Lei de Zoneamento bastante ousada do ponto de vista da sustentabilidade, mas que vai ter uma dificuldade enorme de ser aprovada, porque em Bauru quem manda é a especulação imobiliária.

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Zoneamento vigente no município, atráves da lei 2.339, de 1982. Nova proposta vai pautar o crescimento sustentável da cidade. Foto: Termo de Referência, Secretaria Municipal de Administração.

Outro problema que surgiu esse ano é a questão do aterro sanitário para o lixo de Bauru. As informações são de que ele teria uma sobrevida de apenas 3 meses. Como a Prefeitura pensa em contornar essa situação?

O aterro não é uma solução pro lixo. A solução eu entendo que está na reciclagem, então estamos ampliando a coleta seletiva, ampliando as cooperativas. Mas nós temos que dar um destino mais ou menos adequado para o lixo. O que fizemos ao longo dos anos foram ampliações do aterro. Eu fiz uma de 11 mil m² e agora mais uma de 5 mil m², estamos fazendo o projeto de mais uma ampliação desse aterro, o que leva um tempo. Simultaneamente estamos fazendo uma licitação pra poder dar um destino pro lixo.

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Com prazo curto para solucionar o problema do aterro sanitário de Bauru, Prefeitura pode recorrer a aterros privados na região. Foto: Quioshi Goto/Jornal da Cidade

De forma geral, como você avalia esse seus dois mandatos à frente da Prefeitura de Bauru e o que você ainda espera concluir para o restante desse ano?

Meu primeiro mandato foi um momento diferente, estávamos dentro do governo Lula, onde tinha muito dinheiro sobrando pros municípios e onde a arrecadação estava aumentando – cresceu 172 milhões em quatro anos, então foi um momento bem diferente do atual. Agora estou pegando só queda de receita, estamos num momento de crise, de queda de arrecadação, esse segundo governo está sendo de conseguir conduzir e administrar as dificuldades, mas ao mesmo tempo deixaremos um legado bacana.

Vamos entrar agora num período de efervescência na política municipal com as eleições. Você declarou seu apoio à Darlene Tendolo, da SEBES, para a candidatura. Gostaria de vê-la no seu lugar, como prefeita?

Ela é uma pessoa que tem uma capacidade muito grande de administrar. Conhece bem a Prefeitura, conhece todos os setores, é funcionária de carreira da Prefeitura e acho que ela tem capacidade de administrar a Prefeitura (…) Eu acho que a Darlene tem tudo pra dar um caráter social para a administração, vou apostar nela. Não sei se meu partido vai escolhê-la como candidata, mas confio nela.

Deixando o cargo da Prefeitura você tem alguma perspectiva de seguir carreira política?

Se eu sobreviver à esse ano (risos), com toda essa crise e esses problemas, a ideia é de mais ou menos daqui 2 anos e 7 meses eu sair candidato à deputado – estadual ou federal. Já tentei uma vez e não consegui ser eleito, então vou tentar de novo. Essa é minha proposta agora. Mas minha prioridade hoje é administrar a cidade.

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