Jessica Jones: entre super-heróis e relacionamentos abusivos

A realidade de milhões de mulheres estampada nas telas das TV’s

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Foto: divulgação

Por Thais Daniel Benedicto

Uma das mais novas heroínas a fazer sucesso da Marvel, Jessica Jones é uma série de televisão americana criada por Melissa Rosenberg e produzida pela Netflix. A série, eleita pelo caderno “Pop & Arte” do G1 como “o melhor produto original do site de vídeos sob demanda – e uma das melhores adaptações de quadrinhos dos últimos anos”, está fazendo um grande sucesso mundial e já tem a segunda temporada confirmada.

Jessica é a heroína que tantas mulheres estavam esperando. Ela é mulher guerreira, determinada, vai à luta, feminista, e não fica as sombras de um homem. Porém, sua maior luta é com a própria mente, a mente de uma mulher que sofreu abusos verbais e sexuais de um ex-namorado. Luta todos os dias para se livrar desse seu passado.

A Marvel, juntamente com a Netflix, conseguiram dar vida e passar para as telas uma realidade que amedronta milhões de mulheres todos os dias, seja quem ainda esteja passando por um relacionamento abusivo ou seja quem já passou e, que de alguma maneira, tenta superar. Não é possível achar dados, pelo menos aqui no Brasil, sobre o tema, mas é só dar uma pesquisada sobre “crime passional” no Goggle que vamos achar dezenas, centenas, de notícias de mulheres brutalmente assassinadas pelo ex companheiro, com a desculpa de que “amava demais”, “não conseguia viver sem”. Mentira. Tudo isso é fruto de um relacionamento abusivo em que a mulher não tinha forças para sair e quando conseguiu, infelizmente, foi tarde demais.

Isso porque, muitas mulheres não sabem, ou não entendem, quando estão em um relacionamento abusivo. “Eu não sabia que eu estava em um até sair dele… Na verdade, não queria acreditar, pois meus pais afirmavam diariamente que eu estava, meus amigos, todo mundo… e eu achava ele a melhor pessoa do mundo…” – Ana Luíza, 21 anos.

O site da entidade SOS Ação Mulher e Família fez uma lista com dez sinais que caracterizam um comportamento abusivo por parte do parceiro, são eles: 1 – ciúmes e possessividade; 2 – controle; 3 – superioridade; 4 – manipulação; 5 – mudanças de humor; 6 – suas ações não correspondem as suas palavras; 7 – pune você; 8 – não quer procurar ajuda; 9 – desrespeita as mulheres; 10 – o homem agressor, muitas vezes, já tem uma história de abuso a mulheres, ou a animais, ou foi abusado ele mesmo.

Muitas mulheres se enganam, pois no começo do relacionamento, o parceiro tende a se mostrar uma pessoa boa, compreensível e romântica. Somente com o tempo, quando, na maioria das vezes, ele já ganhou a confiança necessária da família e de amigos, aos poucos, solta suas garras e releva uma realidade muito diferente da anterior. Porém, esse é o tempo suficiente para a mulher se apegar e se apaixonar pela pessoa.

“No começo, ele foi um cara muito legal comigo, sempre se esforçava pra me ver, fazia sempre o que precisasse pra me agradar, comprava flores, fazia surpresas e tudo mais, isso fez com que meus pais gostassem muito dele e incentivassem o namoro, que começou mais ou menos um mês depois que nos conhecemos. […] Mas depois de algum tempo, passou dos limites, ele não gostava nem que eu fosse até o salão fazer a unha sem que ele fosse comigo, mas meus pais me diziam que era ‘fofo’. Depois de alguns meses juntos, brigávamos todos os dias, logo de manhã ele me mandava mensagem perguntando quem eu tinha cumprimentado na escola, coitada de mim se algum menino falasse comigo…” – Lia, 19 anos.

Maria, de 21 anos, também passou por isso. Seu ex era 13 anos mais velho que ela e, por conta disso, pensava que podia calar o seu discurso. “Ele sempre jogava na minha cara que ele sabia de tudo porque já tinha vivido tudo e eu não, eu era apenas uma menina e não tinha que ter opinião formada sobre nenhum assunto, ele sempre estava certo porque ele era mais velho que eu. Ele gritava comigo, quebrava coisas, me chamava de criança, me enfiava no carro e dirigia igual um louco (várias vezes achei que ia morrer). Fiquei nesse relacionamento por 3 anos e meio… Ele me puxava pelos cabelos, me agredia muito verbalmente e um dia chegou a me apertar e me dar um tapa. Mas eu era cega! Achava que se não fosse ele, não seria ninguém. Achava que o problema era eu, que ele era perfeito… Até que então fui ficando muito amiga de outras pessoas… Da faculdade e etc. E eu comecei a enxergar que nem tudo era o que eu vivia. Eu resolvi dar um fim! Foi terrível, ele me ligava 24 horas, mandava mensagens ameaçadoras como se ele fosse se matar por minha causa, que eu nunca ia encontrar alguém igual ele e ia sofrer demais e que quando eu caísse na real, ele não ia me querer mais.”

Muitas mulheres relutam meses, ou até anos, para darem um basta na relação. Umas, porque são iludidas com as frases “você nunca vai achar alguém melhor que eu” ou “você não merece algo melhor” e por aí vai… e sem que notem, ficam tomadas por esse sentimento. Outras, porque são constantemente ameaçadas com “se você me largar eu te mato” ou “me mato”. Porém, quando enfim ganham forças para se afastar do abusivo, o medo de se relacionar novamente ganha força.

“Uma semana antes de terminar de fato, conversei com ele e reforcei que não estava feliz. Ele fez um show, novamente me senti injusta e resolvi dar mais uma chance. Dias depois tive uma crise de ansiedade e peguei o celular dele. Descobri que ele tinha vários rolinhos com muitas meninas e graças a isso consegui forças e um argumento incontestável para terminar. […] Depois que terminamos descobri que ele ameaçou muita gente para que se afastassem de mim. (ameaçou mesmo, de morte). Hoje namoro um outro cara, completamente diferente. Mas é muito difícil deixar os traumas para trás. Me pego pedindo desculpas por coisas que eu não precisaria. Sou insegura e não consigo expressar o que sinto, seja positivo ou negativo. Por muito tempo tive medo de sofrer alguma violência, algum abuso… medo de me aproximar e cair no limbo que eu fiquei presa por anos. O que me ajudou, foi conversar. Mas conversar MUITO. Meu atual namorado tem muita paciência e me ajuda a encarar o que aconteceu. Hoje estamos juntos há 1 ano e eu estou voltando a ter forma e personalidade própria.” – Laura, 23 anos.

“Eu tenho traumas! Eu brigo com meu novo namorado por conta disso e me sinto péssima, mas ele sabe de tudo e me apoia. Eu sou desconfiada, qualquer coisa acho que a pessoa me odeia e por assim vai… Mas dia após dia estou melhorando. Não vou deixar essa pessoa estragar minha vida! O novo namoro ainda é bem recente, mas estou fazendo tudo ao meu alcance para ser algo novo, melhor e saudável.” – Júlia, 20 anos.

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