O que precisa, onde precisa

Agricultura de precisão é alavancada para identificar a variabilidade das áreas agrícolas e tratar as lavouras de maneira individualizada

Por Gabriele Rodrigues Alves da Silva

Durante a Agrishow 2016 − considerada a maior feira de tecnologia do agronegócio na América Latina − foi criada a Associação Brasileira de Agricultura de Precisão. Uma iniciativa que confirma a importância desse segmento do agronegócio que revolucionou a agricultura ao considerar a variabilidade espacial da área a ser cultivada. “A Associação ainda está bem incipiente, já que ela se iniciou na Agrishow em abril, mas no Congresso de Agricultura de Precisão, previsto para a primeira semana de outubro de 2016, pretendemos angariar os associados e ter mais estabelecido o que é essa associação, quais os seus direitos, deveres e suas metas”, comenta o professor Lucas Rios do Amaral, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp. Mas, afinal, qual a importância da agricultura de precisão e em que contexto surgiu no nosso país?

A chegada desse sistema de gestão

De acordo com o boletim técnico de Agricultura de Precisão (AP) divulgado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, em 2013, essa gestão localizada tem por objetivo utilizar estratégias que resolvam os impasses de desuninformidade das lavouras. Seu surgimento no Brasil está inserido na década de 1990 e o professor Lucas explica que chegou por aqui, primeiramente, um conceito de máquina para fazer uma aplicação de calcário – que é um corretivo de solo – em taxa variável.

Andava-se na lavoura e aplicava a dose do produto de forma variável em função de um mapa que era elaborado. “Tudo isso, porém, de uma maneira muito precária. Mas lá nos anos 2000, passamos a ter um sinal de GPS com qualidade. Antes tínhamos um problema de “disponibilidade seletiva” que era um erro proposital dos Estados Unidos para que os únicos que tivessem acesso à qualidade máxima do GPS fossem os militares americanos. No entanto, isso foi desabilitado pelo Bill Clinton em 2000 e, a partir daí, a agricultura de precisão começou a andar”, completa Lucas.

Pensando na agricultura convencional, todo e qualquer problema que surgir nas áreas de cultivo vai ser considerado como um impasse total da lavoura. A agricultura de precisão surge propondo soluções para as variações que aparecem nessas áreas, otimizando o trabalho do produtor que vai atender à demanda específica de cada ponto de sua propriedade. O engenheiro agrônomo e gestor de projetos da Pecege (Esalq/USP), João Henrique Mantellato Rosa, esclarece que “a agricultura de precisão consiste no gerenciamento individualizado da lavoura, tratando o talhão em células.  Enquanto na agricultura tradicional, as tomadas de decisão, em geral, levam em conta médias, assumindo uniformidade da área”.

 Como é na prática

As tecnologias são grandes aliadas na hora de colocar em prática as estratégias da agricultura de precisão. Porém, para o professor Lucas Rios do Amaral elas não precisam estar, necessariamente, associadas ao objetivo de resolver a desuniformidade das lavouras, já que no caso do pequeno produtor, por exemplo, há conhecimento da área em que ele produz mais ou produz menos, fazendo assim, uma investigação localizada. “O conceito de gestão da variabilidade espacial não é, obrigatoriamente, em função de tecnologia. Mas hoje, os departamentos de empresas quando falam em agricultura de precisão fazem essa associação”, pontua o professor.

A aplicação de adubo de forma variada pode ser um exemplo de como as tecnologias funcionam na agricultura de precisão. Para esse fim, existe uma máquina que é programada para que a dose do fertilizante possa variar em alguns pontos da área trabalhada. Por meio de um mapa de recomendação de adubo feito em escritório − que reúne informações coletadas no campo – a máquina se desloca na lavoura sabendo onde ela está e sabendo a dose de adubo que ela deve aplicar em cada local. Isso é possível por meio do GPS.

Para Orlando Melo de Castro, coordenador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, o GPS − mapeando metro por metro toda a plantação e identificando as falhas do plantio − fornece ao produtor a chance de verificar a causa das falhas, se elas são por baixa fertilidade ou por competição. “É possível tratar desta causa de uma forma muito mais direcionada. Se em determinada área, por exemplo, há problema de fertilidade, é possível aplicar mais adubo exatamente no local em que o problema está acontecendo”, comenta Orlando.

img_1373

Modelo de maquina agrícola para pulverização, incluindo piloto automático hidráulico. Foto: Gabriele Rodrigues Alves da Silva

Mais tecnologia

Entre outras tecnologias, o coordenador da APTA ainda ressalta que o uso de veículos aéreos não tripulados, os famosos drones, também têm sido incorporados pela agricultura de precisão. Ele enfatiza que essas ferramentas podem mostrar, em determinadas épocas do ciclo da cultura, se há falhas no estande ou pontos com maior infestação de pragas, doenças e ervas daninhas, facilitando uma ação localizada e minimizando as diferenças das áreas de produção.

No mercado de maquinários agrícolas existe ainda máquinas sem piloto ou controladas por um computador cujo monitoramento é de responsabilidade do produtor. “São avanços muito grandes que começaram a ocorrer, mas que em um futuro próximo devem ter maior abrangência”, complementa o coordenador da APTA.

img_1381

Bicos de pulverização garantem maior precisão na aplicação do insumo agrícola. Foto: Gabriele Rodrigues Alves da Silva

Quem usa a agricultura de precisão?

Um estudo realizado por pesquisadores da Rede de Agricultura de Precisão da Embrapa, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), divulgado no ano de 2014, apresentou o perfil dos usuários da agricultura de precisão. A pesquisa foi apresentada na Embrapa Instrumentação, na cidade de São Carlos, e revelou que o usuário desse sistema de gestão agrícola é jovem e disposto a usar cada vez mais tecnologia da informação para gerenciar as lavouras. A pesquisa foi feita no ano de 2012, com 301 responsáveis por propriedades rurais de várias regiões do Brasil.

Boa ou ruim?

No Brasil, as soluções propostas pela agricultura de precisão estão mais focadas na aplicação de adubos e corretivos de solo e segue evoluindo para a irrigação de precisão, para população de plantas variável, aplicação de agrotóxicos e defensivos agrícolas de forma variável também.

Sobre a possibilidade da agricultura de precisão contrastar com o desemprego, o engenheiro agrônomo da Esalq/USP, João Henrique Mantellato Rosa comenta que a automação e modernização, independente do segmento, resulta em modificações nas relações de trabalho. “A tecnologia extingue determinadas vagas de trabalho, outras são demandadas. A diferença entre estes postos está na qualificação da mão-de-obra”, afirma.

Ele ainda elucida que entre os benefícios da adoção de práticas da agricultura de precisão estão a redução do uso de insumos, o aumento de produtividade, implicando, portanto, em redução de custos operacionais, além de benefícios ambientais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s