O amor não controla nem sufoca

Já parou para pensar como algumas atitudes de seu parceiro ou parceira podem estar influenciando a saúde de seu relacionamento?

Laura namorava Pedro há três anos.  No início tudo era maravilhoso.

Ele era sempre muito solícito, fazia de tudo para agradar a namorada.

Apaixonadíssima, Laura também atendia a todos os pedidos de Pedro. Queria sempre vê-lo feliz e satisfeito com o relacionamento.

Com o passar do tempo, o carinho que Pedro demonstrava não era mais tão recorrente. No lugar do amor, as brigas ganharam cada vez mais espaço.

Pedro passou a ser excessivamente ciumento.  Laura, por exemplo, não podia sair sozinha com as amigas.

A roupa também não podia ser curta.

O que os outros homens iam pensar de uma moça comprometida?   

Pedro era possessivo.

Com medo de perder o namorado, Laura não discutia tanto as imposições. Por muitas vezes, até acabava concordando. Achava que ele estava certo.

Afinal, ele dizia que a amava.

Laura e Pedro são personagens fictícios, mas nada impede que eles existam de fato. Você pode ler essa história e achar um absurdo ou simplesmente se identificar.

Para alguns, pode ser inimaginável conviver em uma relação assim. Para outros, um relacionamento como esse é realidade. Não é fácil identificar um relacionamento abusivo, ainda mais, quando se vive um. Ao contrário do que parece, a palavra abuso não representa apenas um abuso sexual ou físico. Além desses, pode haver também a violência psicologia, que é tão grave quanto.

Laura e Pedro são meros exemplos, mas podia ser Marina e Clara ou Fernando e Marcelo. Relações abusivas podem acontecer em qualquer tipo de relacionamento. A partir do momento que vontades e desejos do parceiro ou parceira prevalecem em uma relação, algo não anda bem.

Relacionamentos abusivos são silenciosos. Na maioria das vezes o autor dos abusos é sutil. No início, são pequenos comentários, algumas observações que acabam passando despercebidas ou são ignoradas. É esse motivo que leva muitos a não enxergarem que tal comportamento não deve acontecer dentro de um relacionamento. Em alguns casos, a vítima até suspeita e sente que algo está errado, mas acaba se recusando a acreditar.

Em situações assim é comum pensar:

– Poxa, mas ele disse que me ama.

Ou ainda:

 – Deve ser coisa da minha cabeça.

Pensamentos assim invadiram a mente de Beatriz* durante seu relacionamento.

“Eu não tinha a menor noção. Inclusive quando iniciei o relacionamento eu gostava das cenas de ciúme. Acreditava que ele fazia aquilo porque me amava.”  Beatriz*, 25 anos.

Não enxergar ou não querer acreditar no que está acontecendo é o maior perigo para quem sofre o abuso. Sem dúvidas, devemos concordar que é muito difícil concluir que o seu parceiro é o responsável por todo sofrimento.

É preciso saber identificar atitudes suspeitas de um relacionamento que não é saudável. Comportamentos como ciúme excessivo, manipulação, chantagens e agressividade, são atitudes típicas de relações abusivas.

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A estudante, Luiza*, de 22 anos, conta que por muito tempo levou pequenos comentários na brincadeira, mas depois entendeu que eram feitos com o objetivo de atingi-la psicologicamente.

“Olha, se você está com alguém que mesmo de brincadeira faz comentários maldosos, um dia vai deixar de ser brincadeira e a agressão verbal vai ser real”. Luiza*, 22 anos. 

Vendo de fora o sofrimento de uma pessoa que vive um relacionamento completamente prejudicial, é fácil questionar:

– Mas porque você não termina?

A verdade é que não é fácil terminar um relacionamento quando se gosta de uma pessoa. Em muitos casos, a vítima pensa em motivos que podem levar a continuar e acreditar em uma mudança de comportamento do parceiro.

Um dos motivos mais apontados é o medo de ficar sozinha e não encontrar mais ninguém.

Era muito difícil me imaginar fora do relacionamento. Eu achava que ia ficar sozinha, que não ia casar. Morria de medo disso.”  Fernanda*, 23 anos.

Em primeiro lugar, quando se vive um relacionamento longo, é natural que o medo exista. Você acaba ficando acostumado a viver ao lado de alguém e teme ter de começar tudo do zero.

Outro motivo que dificulta o término de uma relação turbulenta é aquela velha esperança de que as atitudes do parceiro irão mudar. Que o autor dos abusos vai melhorar, vai reconhecer que está errado e mudará suas atitudes.

Não podemos esquecer que sair de um relacionamento, muitas vezes, envolve mais que questões afetivas, mas também questões econômicas, legais e até mesmo burocráticas.

Segundo a psicóloga, Tereza Manpetit, a ajuda profissional a pessoas que sofrem com relações abusivas é essencial para a superação do episódio.

“Em casos de relacionamentos abusivos, a ajuda profissional é extremamente relevante, inclusive necessária em muitos casos. Muitas vezes, o indivíduo não consegue discriminar quão prejudicial está sendo esse relacionamento pra ele, além de que muitas pessoas não possuem repertório de comportamento para conseguir sair de uma relação abusiva, ou seja, muitas pessoas não sabem como se comportar caso saiam desse relacionamento e acabam por voltar para a sua zona de conforto, para onde já são “acostumadas”, onde é mais fácil saber como lidar, mesmo que seja uma situação aversiva e que cause sofrimento.”

A profissional ainda dá a dica:

“ Além da ajuda profissional, é necessário que a pessoa aos poucos vá buscando coisas que trazem prazer à ela: um hobby, a família, os amigos, o trabalho, algum tipo de esporte, atividades, coisas que ela goste de fazer e trazem uma sensação de bem estar. Isso vai ajudar a perceber que existem outras coisas e pessoas e não apenas o/a parceiro/a (…)”

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*Em respeito ao pedido das entrevistadas, os nomes citados são fictícios.

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