O economicismo diário

Dados financeiros são suficientes para informar com clareza e profundidade?

 

Termos econômicos são assuntos muito discutidos, mesmo por quem não entende nada de economia. Crédito: Pexels.com

Por Tito Silva

Cotação do dólar, aumento ou diminuição do PIB, número de pontos das bolsas de valores de São Paulo, Nova York e Londres, gastos dos brasileiros no exterior. Dados como esses são veiculados todos os dias nos jornais impressos, na internet e nos noticiários de TV e rádio. Mas por que a imprensa dedica tanto tempo e espaço a esses dados? Qual a importância desses indicadores para nossas vidas?

O sociólogo e ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Jessé Souza, afirma que essa visão economicista trazida pelo neoliberalismo e que é hoje preponderante na sociedade (e consequentemente na imprensa) confunde “quantificação” e o “fetiche dos números” com “explicação e interpretação”.

Para o professor do Departamento de Economia da Unesp, Leandro Pereira Morais, a grande imprensa usa a Economia como instrumento para legitimar o modelo de desenvolvimento economicista, indo ao encontro dos interesses de grandes conglomerados do capital financeiro, conglomerados que muitas vezes abrigam esses veículos de imprensa. A grande mídia na verdade não informa, ela desinforma. Para ela, quanto menos pessoas estiverem informadas sobre essas relações, essas engenharias econômicas e financeiras, melhor é.” diz.

Pereira Morais cita como exemplo desses interesses do capital financeiro a cobertura feita pela imprensa hegemônica da reforma trabalhista: “a imprensa atesta que a reforma trabalhista é algo que vai modernizar o país, que vai gerar empregos. Aí eu chamo lá um economista que tem o rabo preso com esses grandes conglomerados de mídia, e ele vai dizer isso usando, inclusive, a cientificidade econômica para comprovar esse fato, quando, na verdade, há interesses por trás e não é bem assim a história”.

O discurso economicista tem sido alvo de críticas, por seu reducionismo e elitismo. Teóricos da própria Economia e também de áreas como a Sociologia têm se debruçado sobre o economicismo, sua ampla e passiva aceitação na contemporaneidade e seus desdobramentos.

Para a professora Dora Isabel Paiva da Costa, também do Departamento de Economia da Unesp, a divulgação na imprensa de um dado aparentemente inócuo como o gasto dos brasileiros no exterior sem a devida explicação e contextualização, omite o real significado dessa dinâmica econômica: “o direcionamento do poder de compra para os mercados estrangeiros desvaloriza o mercado nacional, a mão-de-obra brasileira e sua possibilidade de qualificação. A capacidade produtiva nacional como um todo passa ser desvalorizada. Além disso, comprar no Brasil significa o aumento da arrecadação de impostos e os futuros benefícios sociais possibilitados pelo pagamento desses tributos”.

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